Em 90 minutos, o Palmeiras campeão brasileiro exibiu suas virtudes. Foi como se reservasse para o jogo da celebração do título uma demonstração da receita que fez este time, tão vencedor em copas nas últimas temporadas, conquistar a última taça que faltava neste ciclo sob o comando de Abel Ferreira. Times vencedores costumam ser visados, estudados, desafiados. E por isso precisam de novas armas. O Brasileiro de 2022, vencido com sobras, terá a marca de uma equipe que superou o último questionamento que ainda poderia ser posto sobre suas capacidades: domar todo tipo de adversário ao longo de uma caminhada de 38 rodadas – o Palmeiras só precisou de 35, diga-se.
As duas Libertadores e uma Copa do Brasil deixavam a disputa por pontos corridos como a única lacuna restante para este Palmeiras. Era natural que muita gente se perguntasse se um time tão capaz de se defender em grandes disputas, frio para esperar por uma única bola e jogar por vezes no limite, não precisaria mudar para ser campeão brasileiro. Numa disputa longa, com tantos adversários que o obrigariam a ter iniciativa, seria preciso ter novas armas. E esta é a grande marca da melhor versão do Palmeiras de Abel Ferreira: a ampliação do repertório.
O Fortaleza foi submetido a 15 minutos iniciais de uma intensidade brutal, um ritmo avassalador de um time que pressionava, sufocava. Assim o Palmeiras lidou com as equipes que, em teoria, eram inferiores a ele neste Brasileiro: empurrando-as contra o próprio gol. Esta campanha viu um time que passou a ser capaz de criar espaços, atacar rivais mais fechados, ainda que siga tendendo a ser conservador – por vezes de forma excessiva – nos grandes jogos. Foi a grande evolução da temporada: agregar novas virtudes a um time vencedor, fruto do tempo e do bom trabalho.
Mas este time tem um traço definidor, uma identidade, algo enraizado desde o primeiro dia da atual comissão técnica no clube: não há time no Brasil capaz de realizar com tamanha eficiência os ataques rápidos, de chegar ao gol em poucos toques, em aceleração. Neste ponto, o Palmeiras é claramente o melhor do Brasil. E assim construiu sua vitória, embora dominasse o Fortaleza de diversas formas.
Ocorre que os cearentes, que tentavam jogar e não se limitavam a resistir, erraram uma vez numa construção de jogada. Juninho Capixaba teve um passe interceptado por Danilo, Scarpa serviu Rony e, em sete segundos desde a retomada da bola, o Palmeiras abria o placar. O Fortaleza erraria de novo ao não concluir um ataque e ser pego com a defesa adiantada. Em dez segundos, a bola passou de Danilo a Marcos Rocha, e dele para Dudu tocar por cobertura.
O jogo estava sentenciado, mas o início do segundo tempo era um filme repetido: roubada de bola de Danilo, passe de Dudu e gol de Rony. Endrick, a próxima grande história dessa era vitoriosa do clube, faria o quarto em seu primeiro jogo como titular.
O fato é que, uma vez resolvida a partida, o Palmeiras seguiria entrando na defesa do Fortaleza de todas as formas: fosse em ataque rápido, fosse de forma mais pausada. É hoje um time muito mais versátil, sem perder competitividade. Mas é também um campeão que nos dá outra lição sobre a disputa de pontos corridos.
Era fácil rotular o time de Abel Ferreira como “copeiro”. Afinal, é difícil resistir a um rótulo. Mas conforme foi ganhando solidez, este Palmeiras reformou também as expectativas postas sobre ele. As copas, aquelas que o time ganhou com seu estilo conservador, por vezes desafiando o limite entre se proteger e atrair demais o rival até flertar com riscos excessivos, são torneios jogados num ambiente menos controlável. O Palmeiras é, claramente, melhor time do que o São Paulo, por exemplo. Mas numa noite em que dominava o jogo, teve um pênalti perdido, outro marcado a favor do rival e acabou eliminado da Copa do Brasil na decisão por pênaltis. Também é um time superior ao Athletico-PR, mas uma expulsão mudou o curso de uma semifinal de Libertadores em que o Palmeiras era controlador.
Mas este tipo de contingência, de imponderável, tem menos peso numa disputa de 38 rodadas: o tal ambiente controlado dos pontos corridos. Nele, o melhor time tende a se impor, a pelo menos disputar o título até o fim. De repente, era mais aceitável ver o Palmeiras derrapar numa Copa, sucumbir ao caráter acidentado do mata-mata, do que vê-lo oscilar a ponto de se afastar da liderança do Brasileiro. Abel Ferreira construiu um time tão sólido que, de copeiro, foi aos poucos virando favorito destacado nos pontos corridos. A taça, o 11º título brasileiro da história do clube, pode não encerrar uma era, já que o clube parece pronto para competir por mais. No entanto, é como se fechasse um ciclo: este time venceu tudo o que podia. E o fez com imensa autoridade.
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