Alessandro Sabattini/Getty Images)
Evair terá um reencontro especial com um clube que foi muito importante ao longo de sua carreira. Ele estará em Bergamo para ver a partida da Atalanta contra a Juventus pelo Campeonato Italiano, neste domingo (7) às 7h30 (de Brasília), com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
A história do ex-centroavante na Itália começou há 35 anos. Após brilhar pelo Guarani, ele foi vendido ao time nerazzurri, que havia acabado de subir para a elite italiana, no meio de 1988.
Apresentado aos torcedores durante um dia frio e chuvoso, o brasileiro demorou um tempo para adaptar-se ao novo país. Além das diferenças no idioma, clima e cultura, ele sofreu uma fratura no maléolo (osso do tornozelo), que o tirou dos campos por cerca de cinco meses.
"O começo foi bem difícil, principalmente nos jogos. Nos treinos a gente se acostuma mais facilmente porque não tem cobrança. Mas a maneira de jogar, esquema tático e de se comportar eram muito diferentes. Eu era só um finalizador no Guarani, nem voltava na bola parada para marcar e fui para um time que precisava segurar a bola na frente e armar o jogo. Aprendi o verdadeiro espírito de grupo", disse ao ESPN.com.br.
"Quando era apenas um centroavante, existia uma cobrança minha e da imprensa só para fazer gols. Na Itália, muitas vezes poderia não ter chances de fazer gols durante os jogos, mas precisava criar para os companheiros. Voltei um profissional melhor da Itália porque entendi que o futebol não era só finalizar".
Logo na primeira temporada, o brasileiro fez 11 gols, incluindo nas gigantes Inter de Milão (que foi campeã italiana daquela temporada), Roma e Juventus.
"Fazia 18 anos que não vencíamos a Juventus fora de casa. Marquei o gol faltando dois minutos para terminar o jogo. Tomei um susto muito grande ao voltar para Bergamo porque a torcida compareceu em grande número no estacionamento quando fui pegar meu carro. Ali eu percebi como era diferente jogar pela Atalanta e como os torcedores eram fanáticos".
Evair ajudou o time a terminar na sexta posição da Serie A e pegar uma vaga na Copa da Uefa. Além disso, caiu na Copa da Itália somente na semifinal para a Sampdoria, que venceu o título.
"O Italiano era o melhor campeonato do mundo. O Milan tinha Van Basten, Gullit e Rijkaard; a Inter tinha os alemães, o Napoli tinha Maradona, Careca e Alemão. Nós tivemos uma participação muito especial".
"O melhor time que enfrentei naquela época era o Milan pelo esquema tático do (técnico) Arrigo Sacchi. Ele fazia uma marcação pressão em cima dos zagueiros que os atacantes participavam demais. Tínhamos muitas dificuldades para sairmos disso. Era o time que mais deixava o nosso sem saber o que fazer".
Em 1989, o brasileiro recebeu um novo companheiro de ataque: Claudio Caniggia, que estava no Hellas Verona. Ele ficou conhecido como carrasco do Brasil ao fazer o gol da vitória da Argentina por 1 a 0 nas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990.
"Ele ficava lembrando do gol e do choro dos torcedores. Mas como eu tinha eliminado a Argentina em outro torneio pelo Brasil, eu o lembrava disso. O Caniggia tinha um cabelo horroroso (risos). Ele fez muito pela Atalanta e os torcedores o adoram, era um cara muito decisivo. É um ídolo".
A dupla ajudou a Atalanta a fazer boas campanhas na Serie A e a chegar longe na Copa da Uefa. Além disso, conseguiu em março de 1991 uma vitória histórica contra o poderoso Milan - campeão da Champions League de 1990 - dentro de um San Siro lotado.
"Recebi um cruzamento do Caniggia e fiz um gol de cabeça. Foi algo bem marcante na minha carreira. Todas as vezes que joga contra times grandes são poucas as chances de marcar".
A parceria entre os atacantes não ficava apenas dentro de campo e se estendeu para fora das quatro linhas.
"A gente tinha uma boa amizade e uma boa convivência. Teve um dia que peguei uma carona no Porshe dele para casa e passei apertado porque nevava. Meu carro não tinha as correntes e tive que andar com ele. Foi um momento difícil, mas valeu a pena."
Com o enorme sucesso, o atacante sentiu de perto o carinho dos fanáticos torcedores da equipe nerazzurri.
"Dificilmente um dono de restaurante em Bergamo me deixava pagar a conta (risos). Eles falavam que era uma satisfação poder servir e principalmente receber um elogio pela comida, que era muito boa. Era um povo trabalhador e extremamente fanático. A cobrança era forte, mas eles te exaltavam e davam tudo que você precisava. O torcedor dizia que ia para o estádio ver a Atalanta, independentemente do adversário. Eles sempre lotavam o lado dos mandantes".
Faltando uma temporada para o final do vínculo, ele decidiu sair da Atalanta porque já não se sentia mais tão feliz. Depois de três anos, com 89 jogos e 30 gols marcados, o artilheiro voltou ao Brasil, em 1991.
"Achei que meu tempo tinha acabado, mas a Atalanta queria que eu ficasse. Nesse período, tive sondagens de outros times, mas jogar em Bergamo era especial e difícil de trocar. A Fiorentina, o Torino e a Roma tiveram interesse, mas a minha vontade de ficar em Bergamo era grande e nem abri negociação".
"Estava em dúvida se ficaria mais um ano, mas minha mãe me ligava dizendo: ‘Já está bom, ficou três anos. Pode voltar’. Ela via de vez em quando meus jogos pela televisão, mas não tinha as facilidades da internet. Isso contava muito. Resolvi voltar ao Brasil e deu certo porque apareceu o Palmeiras com a troca pelo Careca (Bianchesi) e foi bom. Voltei para um time que precisava ser campeão e acabou sendo", disse.
O centroavante virou um dos maiores ídolos da história do Verdão, mas jamais se esqueceu do antigo clube. Sua chácara em Ouro Fino-MG leva o nome de Atalanta.
"Em 1994, fizemos uma excursão com o Palmeiras pela Rússia e passei uns dias pela Itália porque teria folga pela Copa do Mundo. Fui para um jogo da Atalanta e foi uma festa muito grande. Eu vi o jogo e tive que dar uma volta olímpica. Depois, voltei no centenário da Atalanta (2007) junto com o Caniggia".
Evair estará no Estádio Atleti Azzurri d'Italia, em Bergamo, para ver o duelo contra a Juventus. É esperado que o antigo atacante receba alguma homenagem antes da partida.
"Voltar para a cidade depois de tanto é muito marcante e espero que corra tudo bem. Fico muito feliz por poder rever o torcedor da Atalanta", finalizou.
Atalanta x Juventus, válido pelo Campeonato Italiano, terá transmissão pela ESPN no Star+, neste domingo (07), às 7h30 (de Brasília).
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