“Eu sou mulher em um universo totalmente machista, presidente deste clube gigante no meio de clubes de Série A e B onde não existe nenhuma outra mulher”. Foi com essa frase, reunida com o Conselho Deliberativo do Palmeiras , que a presidente do clube, Leila Pereira, começou a explicar as críticas que tem sofrido por sua atuação no comando do atual campeão brasileiro.
O machismo no futebol brasileiro é um fato, asqueroso, escancarado para qualquer um que atue profissionalmente neste meio, qualquer que seja seu ramo de atuação. É algo tão indiscutível quanto a constatação de que ela, Leila Pereira, é a única presidente mulher entre os principais clubes do Brasil.
Leila não mentiu ao trazer à tona estes fatos, embora os tenha usado para responder a questionamentos específicos que precisariam ser rebatidos com dados. Com transparência. Com estudos. Com informações que ela não fornece por parecer acreditar que não deve explicações a ninguém – característica comum a boa parte dos que, como ela, fazem parte da elite financeira do país.
As pautas identitárias e os movimentos políticos com base nelas são fundamentais no mundo em que vivemos. Mas, embora isso tenha se tornado praxe no Brasil, utilizar essas pautas como justificativa em casos que demandam explicações e respostas específicas costuma ser um desserviço a essas mesmas pautas, as fragiliza. Transforma em muleta a luta séria de muita gente – neste caso, inclusive de várias colegas jornalistas esportivas.
Em casos como o de Leila Pereira no Palmeiras, aludir logo de cara ao machismo, sem antes dar respostas, soa vago e pouco eficiente.
A presidente tem convivido há meses com muitos questionamentos. A eliminação do Palmeiras na Libertadores , como costuma ocorrer no universo do futebol, intensificou as críticas, mas elas já estavam presentes bem antes do confronto contra o Boca Juniors, colocadas de forma protocolar e correta (sem qualquer traço de machismo) por uma oposição que a presidente buscou calar e retaliar de maneira vil e, por vezes, autoritária.
Sua gestão no comando do Palmeiras está longe de ser terrível como foi a sua prepotente entrevista para tentar responder aos questionamentos que vinha recebendo – uma entrevista que, de tão desastrada, só serviu para aumentar as críticas contra si.
Por qualquer prisma que se observe – responsabilidade financeira, estrutura montada, títulos conquistados, profissionais contratados... – a gestão do futebol palmeirense, hoje sob o comando de Leila, está entre as melhores do país. A presidente tem méritos no prosseguimento do bom trabalho iniciado há uma década por Paulo Nobre e depois continuado por Maurício Galiotte, mas isso não a exime de responder as dúvidas e os questionamentos pertinentes que têm sido feitos.
Se fizer isso satisfatoriamente, Leila não apenas amenizará as críticas que tem recebido, como dará automaticamente um peso maior às acusações sobre o machismo que sofre no cargo que exerce.
Dica de leitura: Dois problemas democráticos da política identitária , por Wilson Gomes - revista Cult.
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