Depois de oito títulos em três anos, Abel Ferreira não tinha mais nada a provar e já havia se estabelecido como maior técnico da história do Palmeiras . A nona conquista, dessa forma, não muda muita coisa neste sentido, mas ele é o mais expressivo em relação ao trabalho de excelência feito pelo português desde o fim de 2020.
É bem verdade que os 72 pontos fazem a campanha alviverde estar muito longe das melhores dos pontos corridos na história, e também que o título só foi possível graças a um segundo turno de rebaixado do Botafogo . Porém, o aspecto mais grandioso do 12º Brasileirão do Palmeiras não está no desempenho apresentado em si, mas o contexto.
A base campeã é em sua maioria composta por jogadores já consagrados individualmente e na história do clube – somente seis dos 19 nomes que atuaram pelo menos 800 minutos nesta Série A não fizeram parte do título da CONMEBOL Libertadores de 2021: Murilo, Artur, Richard Ríos, Endrick , Jhon Jhon e Vanderlan.
Este é um cenário perfeito para que o Palmeiras não tivesse capacidade de mobilização suficiente para conseguir uma das maiores remontadas da história do Brasileirão. Ainda mais para uma equipe que perdeu quatro jogos seguidos na competição em meio a uma eliminação dolorosa na semifinal da Libertadores para o Boca Juniors . E não foram quaisquer derrotas, o time paulista perdeu para três concorrentes diretos ( Grêmio , Red Bull Bragantino e América-MG ) e em um clássico ( Santos ).
Some este cenário a uma lesão que acabou ainda no fim de agosto com a temporada de Dudu , o principal personagem dentro de campo. Rony , outra referência dos últimos anos bem-sucedidos, bate campeão em 2023 como reserva em meio a uma queda de rendimento.
A falta de reforços foi um constante motivo de protesto e desconfiança por parte de uma torcida que viu Gustavo Scarpa, o Bola de Ouro de 2022, e Danilo irem embora. Na contrapartida, Artur, que chegou como principal reforço da temporada, até teve um bom início, mas não termina o ano fazendo a diferença ou sequer como titular.
Em meio a um cenário tão adverso, Abel encontrou soluções.
Recuou Zé Rafael no meio de campo e mudou a função do camisa 8 sem fazê-lo perder seu protagonismo dentro da equipe – talvez até vendo-o melhorar.
Mudou a formação tática em meio à impossibilidade de encontrar um substituto para Dudu.
Soube lidar com a euforia externa em torno do início de Endrick, que depois de um início sem brilho a artilheiro do time no Brasileirão e na revelação do campeonato.
Fez Breno Lopes titular e viu o atacante voltar a ser um talismã em uma conquista importante.
Por fim, soube como manter um elenco extremamente focado em uma temporada que parecia ter acabado há algumas semanas.
O título alcançado nesta quarta-feira está longe de ser tão especial quanto qualquer uma das duas Libertadores de 2020 ou 2022, e o Palmeiras é campeão brasileiro em 2023 com nove pontos a menos e um desempenho bem inferior em relação a 2022. E esse é justamente um dos pontos que o torna o mais expressivo da ‘Era Abel’.
O Brasileirão de 2023 é a demonstração por excelência do quão competitivo e focado é este grupo. O Palmeiras conquista uma das maiores hegemonias do futebol brasileiro sem craques lendários ou contratações com valores incomparáveis e mostra o que representa a determinação e a seriedade de um projeto bem construído dentro do esporte hoje, e como ele é muito mais diferencial do que idealizações individualizadas a respeito de jogador.
Neste título, esta virtude foi potencializada com todas as adversidades internas e externas: lesão de Dudu, queda técnica de alguns jogadores, lacunas não repostas no mercado, protestos de torcida contra a direção, vantagem de 13 pontos do Botafogo na liderança e um período de resultados muito ruins em meio a uma eliminação pesada na semifinal da Libertadores.
O Palmeiras de Abel é a maior prova do que é capaz o profissionalismo e o foco no futebol atual.
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