Abel Ferreira tem batido bastante na tecla de que precisa ter mais tempo para a família e aproveitar a vida pessoal . Essas declarações levantaram dúvidas sobre a permanência do treinador português no Palmeiras após a conquista de mais um Campeonato Brasileiro .
Em entrevista exclusiva concedida durante o Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet , o português revelou que a mudança recente no discurso foi motivada por uma conversa com o técnico Carlo Ancelotti, do Real Madrid , há pouco mais de um mês.
Além de falar sobre o jovem atacante Endrick , que irá no meio do ano que vem para o Santiago Bernabéu, Abel pediu um conselho para o italiano.
"Eu partilhei uma conversa com ele e fiz uma pergunta no final: qual era o conselho que ele dava a um jovem treinador que faz nove, dez jogos por mês? E ele disse: ‘Se entender o que vou te dizer, vai entender a essência do futebol. Não leve o futebol tão a sério’. Eu fui para casa pensando nisso e acho que ele tem razão", disse ao ESPN.com.br .
"Falamos sobre o Endrick, falei sobre o livro que eu vi sobre ele e a forma dele de liderar. Acho que ele tem uma forma de liderar e somos muito similares. Vi uma entrevista dele com o Valdano, que falou que o Guardiola era um obsessivo, o Mourinho era um obsessivo e que o Ancelotti não era um obsessivo. E o Ancelotti disse que a própria forma dele liderar tem a ver com isso. Ele olha para o atleta de forma integral, como ser humano e a forma como consegue tocar nos atletas. Isso se vê na forma como ele lidera os seus elencos. É uma forma absolutamente extraordinária. Ele disse: ‘Fica tranquilo, que eu ganhei uma pilha de títulos, mas tenho umas quantas perdidas, portanto, fica tranquilo’", disse.
Apesar de admirar a forma como Ancelotti trabalha, Abel admite que é ligado ao trabalho de forma "obsessiva" e que possui dificuldades em se desligar do futebol mesmo nas horas vagas.
"Eu acho que no início todos nós procuramos ser melhores em tudo aquilo que fazemos. É a forma que você tem para ser melhor naquilo que faz é dedicar o maior tempo possível. E o futebol neste momento requer de ti especialização na área de treino, sistema, comunicação e liderança. São muitos vetores que você precisa ser excelente, senão não consegue chegar".
"Isso requer muito tempo, mas a partir de determinada altura, precisa começar a equilibrar a balança. E fez sentido aquilo que ele disse, porque às vezes não devemos levar o futebol tão a sério. Porque a vida continua, independentemente da derrota e da vitória".
Visto com um técnico promissor em Portugal, mas ainda sem grandes títulos no currículo, Abel foi contratado pelo Palmeiras como uma aposta em 2020. Pouco conhecido no futebol brasileiro, ele fez uma reunião para pegar informações com Luiz Felipe Scolari, seu treinador na seleção portuguesa e ídolo do Verdão.
Em poucos meses, o português faturou a CONMEBOL Libertadores e a Copa do Brasil . Depois disso, emendou mais sete títulos até o final da atual temporada.
"Quando cheguei aqui, o Felipão foi a primeira pessoa e uma das pessoas que me passou muitas informações sobre o futebol brasileiro, a imprensa brasileira, a quantidade de jogos, as viagens e alguns cuidados que precisava ter. Com todas as pessoas que falei, ia tirando os meus apontamentos. Fiz depois a minha própria avaliação daquilo que seria o mais indicado para nós começarmos a trabalhar e procurar os resultados o mais rápido possível, sem certeza nenhuma do que ia acontecer. Não sabia se ia ganhar ou não. Logicamente que quando você sai do teu país ou vindo de fora e chega ao Brasil, nós é que temos que nos adaptar e saber o contexto de onde estamos. E acho que é isso que nós conseguimos fazer de forma rápida".
Além das conquistas, o técnico também ganhou a idolatria dos palmeirenses pelo discurso bastante afinado com a torcida.
"Vou ser sincero, a forma do torcedor palmeirense, eu já passei por vários clubes, há um bocadinho de torcedor palmeirense em todos os clubes (risos). Há sempre ao teu lado os cornetas, não é só no Palmeiras. E isso faz parte e é bom. É preciso ter um pouco de pimenta. Imagina se todos os torcedores dizem que está tudo certo, está tudo bem. É preciso sal e pimenta no futebol. Essa discussão boa e essas brincadeiras são o que faz girar o futebol".
"Agora entendo mais do que nunca porque o Brasil é o país do futebol. O futebol faz parte da vida de vocês, mesmo. Enquanto lá o futebol é quase como se fosse um passatempo, aqui é quase que uma religião. É pertencer a um grupo, uma comunidade, uma família...", finalizou.
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