Era caçado dentro de quadra: histórias de Estêvão, do Palmeiras, ainda criança Thiago Neves guardou na memória a conversa que teve em 2016 com a esposa. O professor de futsal do Colégio Batista, em Minas Gerais, se preparava para comandar o time na estreia da Copa Mercantil do Brasil, um dia após o espetáculo de Lionel Messi no 4 a 0 da Argentina sobre os Estados Unidos, na semifinal da Copa América. – Amanhã você vai ver o novo Messi – anunciou à esposa, depois de ver o argentino marcar um gol e duas assistências no jogo. – Você está exagerando, é puxa saco do menino – ela respondeu, descrente nos comentários.
A Copa Mercantil reuniu dezenas de times em quatro quadras voltadas para a rua, e as pessoas de passagem, mesmo sem qualquer ligação com o jogo, interrompiam caminhadas para assistir. Naquele dia, o Colégio Batista venceu o Santo Antônio por 13 a 0. Estêvão, aos nove anos, fez oito gols. – Minha esposa entrou no carro e disse: é... realmente – conta Thiago, orgulhoso.

Menos de uma década depois, o atacante de 18 anos fez em Belo Horizonte sua última partida pelo Palmeiras no Brasil, encaminhando a despedida para se apresentar ao Chelsea, da Inglaterra, após a Copa do Mundo de Clubes. No reencontro, procuramos aqueles que viram alguns dos primeiros passos da Cria, que em julho deixa o país como a venda mais cara da história do futebol brasileiro. Apesar do comentário do treinador, Estêvão nunca carregou o apelido de Messinho no Colégio Batista. Não quis comparações. Tinha oito anos, estava na base do Cruzeiro e se matriculou, por intermédio dos empresários, pela política de incentivo aos atletas na escola. Encantou desde o primeiro treino.
O professor dele chega para mim e diz: "Daniel, esse menino tem que vir, ele é fora do normal" – conta o coordenador da Escola Batista de Esportes, Daniel Simões, resgatando a cena na pequena quadra, quase escondida nos fundos do colégio. Eu vi cinco minutos do treino e falei assim: "Thiago, nunca vi nada igual". — completa. O drible, a intensidade, a condução da bola para uma criança de oito anos... Tudo impressionava os professores. Entre as crianças com quem dividia a quadra, ainda que muito habilidoso, Estêvão precisou de tempo para cativar. – No começo não achei que ele era tão craque assim, mas nos jogos era fora do normal, pegava a bola e driblava uns quatro caras. Jogava duas categorias acima e fazia o que queria em quadra – conta Luis Fernando, ex-aluno, e que participou do primeiro treino de Estêvão na escola.
Estêvão disputou seis competições pelo Colégio Batista, duas delas, inclusive, antes mesmo de ingressar no ano letivo. Conquistou o título em todas. Entre as principais, estão os Jogos Escolares de Minas Gerais de 2019, o Campeonato Metropolitano, os Jogos Escolares de Belo Horizonte e a Copa Mercantil do Brasil. A boa relação da família com o treinador, que costumava abrigar o atacante em sua casa quando os pais, Ivo e Hetiene, saíam mais tarde da igreja, deu confiança a Thiago para ter intervenções mais drásticas nos treinos.
Como quando Estêvão se incomodava com a marcação. Nele eu não dava falta, porque sempre falava: "Estêvão, você vai ser caçado dentro de campo e nem sempre a arbitragem vai marcar falta. Você tem que se acostumar". — explicava Thiago ao menino, que ficava de cabeça quente, mas sempre respeitou as decisões. Pela tradição esportiva da escola, a fama de Estêvão precedia a pessoa. Os professores, principalmente os de educação física, falavam sobre o talento do menino, despertando a curiosidade de quem não o conhecia ainda.
Outros, especialmente rivais, queriam que fosse tirado de quadra para deixar outros jogarem. O que ele fazia com a bola é inexplicável. Só quem presenciou... porque hoje o futebol está muito competitivo e às vezes ele não faz o que fazia antes. Mas está colhendo os frutos. É coisa de outro mundo, isso eu nunca vi. — diz Thiago.
Nesse período, Estêvão ainda jogou por outro time de futsal, chamado Esportes Elite, com o técnico Marcos Luiz Franco, que fez o convite ao pai do menino depois de vê-lo na Copa Trivela. Ficou dos oito aos 12 anos e foi a principal estrela em duas edições do Encontro Brasileiro de Futsal, em 2016 e 2017. – Tínhamos outros atletas muito bons, mas igual ao Estêvão nunca – conta Marcos, que lembra de torcidas rivais pedindo para tirá-lo de quadra.
Durante todo esse tempo, porém, Estêvão nunca deixou o talento subir à cabeça. Não se percebia soberba, deslumbre ou intensão de abandonar a escola, por exemplo. É o que relata o professor de geografia, José Carlos, que o descreve como um aluno dedicado, de sorriso fácil e bom aproveitamento escolar. – Eu uso o Estêvão como referência para os outros estudantes – conta José Carlos. – É uma instituição com uma vulnerabilidade muito grande e muitas vezes estudantes colocam na mente "vou ser jogador, isso que vou fazer da minha vida" e deixa o estudo de lado. Uso o Estêvão como referência pela postura dele: aqui na escola sou estudante, não jogador – completa.
Estêvão estudou no colégio mineiro até os 14 anos, antes de se mudar para São Paulo, mas desde então é constantemente celebrado pela instituição, como quando recebeu a convocação para a seleção brasileira sub-17. E agora, apresentando-se à seleção principal de Carlo Ancellotti nesta segunda-feira, enquanto o mundo se prepara para conhecer Estêvão, no Colégio Batista já sabem: um talento passou por ali — e deixou muito mais do que gols.
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