Por volta dos 35 minutos do segundo tempo de Palmeiras x Chapecoense, uma criança no degrau atrás do meu teve a inusitada ideia de fazer cócegas em meu sovaco. Minha camisa regata lhe dava esta chance, mas nada de lógico podia encorajar um menininho que não me conhece a tamanha, digamos assim, audácia. Não me julgo um tipo convidativo às crianças. O susto, claro, virou riso, o dele muito maior que o meu, e eu tentei revidar, ele correu mas se deixou ser pego, e o pai riu também, e a criança, até se distrair com outra coisa dois ou três minutos depois, insistiu, tentou chamar a minha atenção através das axilas e causar o meu riso.
"Ei, pode rir, nós já somos campeões", ele poderia estar falando.
Só pude concluir que não emanava mais qualquer tensão, estas coisas as crianças captam e temem. É enternecedor o final de tarde na Pompéia, bairro onde, perto das sete da manhã, fui acordado por uma bateria nervosa de fogos de artifício, certamente o susto mais gostoso da vida, quer dizer, o segundo, já que o primeiro foi a festa surpresa de aniversário que ganhei, todos vestidos de Palmeiras numa garagem, e já éramos líderes naquele início de outubro, e fazíamos planos, ainda que abstratos, de ganhar esse negócio sem precisar da rodada final. Cai a tarde na Pompéia, com um jeitão de chuva. A cautela vira protocolo desavergonhado até o apito final. Campeões.
Na comemoração o clube nos esfrega na cara, talvez sem perceber, tudo aquilo que o futebol nos nega. Papel picado, fumaças, rojões, luzes, efeitos. É proibido mas é bonito pra caramba, então quando eles querem, pode. O mosaico, vetado pela Polícia duas horas antes do apito inicial, virou bexigas, ah é, isso, foram as bexigas que distraíram o menino das cócegas. O telão roteiriza a despedida de Gabriel Jesus e anuncia a venda do copo dourado comemorativo enquanto a gente pensa, lá dentro, o que de bom e de ruim nos espera lá fora.
Pois é isso, parece um jogo, mas são três. Na preliminar, a Polícia Militar arrancou um empate com sabor de vitória. Humilhou, feriu e intoxicou de gás muita gente em nome de uma pobreza de espírito conclamada por uma vizinhança quase virtual, formada por gente que envelheceu mal, carente, e que se agarra a discursos radicais para plateia irrefletida jurando que suas vidas são realmente afetadas pelo que ocorre na rua. O que eu vi foram moradores dos arredores do Allianz Parque colocando tevês nos quintais e janelas para ajudar os sem-ingresso na rua a verem o jogo. O combate é falso, o bairro gosta da gente.
De modo que a saída do estádio é o terceiro e último jogo da jornada. Os de dentro encontram os de fora, os milhares e tenazes rapazes e moças que, nas palavras de Ubiratan Leal, "não torcem, fazem ação afirmativa", e que venceram, por cansaço ou obviedade, a polícia cujo chefe da "operação" afirmou, lá pelas 13h00, que "se a gente for embora e morrerem dez, o que falarão de nós?", como se fosse tudo pela nossa segurança, aham.
É assim a Polícia Militar, seus profissionais recebem um papel com ordens e , em negrito, a mensagem "cumpra-se", e nisso eles são, até, competentes. Enquanto quem manda algo ser cumprido não fizer ideia do que é de verdade o entorno do Alianz Parque em dia de jogo, este embate sem sentido será repetido até o desfecho chocar a sociedade. Não adianta insinuar que um isopor de cerveja compete e tira dinheiro do Palmeiras, nem que existe uma "gangue de bolivianos" roubando celulares. O futebol é um dos últimos refúgios esteticamente positivos para a Polícia Militar de SP, as fardas cinzas associadas ao espetáculo do futebol revigoram algum reflexo visual qualquer, mas deu errado desta vez: a PM tocou no ridículo constrangedor, alienada e desproporcionalmente posicionada em um evento cuja realidade não lhe foi apresentada.
O Paradoxo
Entre a revista policial e a catraca de acesso, paro um pouco e assisto a torcida caminhar. É um lugar estratégico para os observadores. Todos reagem sem máscaras nestes vinte metros. Calam ou gritam, rezam ou xingam, é o "agora vai" de quem sentou no carro da montanha russa, excitação ou medo, sem meias medidas. Tantos rostos que conheço e não sei o nome passam, e quando giro a catraca e subo as escadas de acesso vejo um tipo como eu, desamparado, entregue à ansiedade, sozinho, me soa familiar. Lhe dou a mão, desejo bom jogo, e me espanto por ele saber meu nome, talvez por causa desse blog, que loucura. Nos abraçamos e ele chora e fala as coisas mais positivas do mundo. Damos outro e mais um abraço, e corro, de estômago embrulhado, para perto dos meus.
É esse cara, e meus amigos e amigas, que me puxam de volta para o palmeirismo fundamental, aquele que criou narrativas de sorte e azar, métodos para fugir da empolgação, superstição reversa, calabocas atômicos contra opiniões contrárias, eleição de jornalistas inimigos, desdém com o humor alheio, defesa irrefletida de nossas coisas como se o império na verdade fosse uma aldeia, tudo que maquiasse ou adiasse o inevitável confronto entre o desejo de via-crucis com a versão mais confiável da história deste campeonato: não foi sofrido, simplesmente não foi sofrido. Foi uma conquista categórica, até. E nem carentes de títulos nós estamos, com todo respeito aos 22 anos.
Acreditamos, desde 2009, que perder a liderança é o mesmo que ser eliminado do campeonato. Não é, claro, e esta é a grande sequela real daquele ano fatídico. Se fôssemos ultrapassados em algum momento do returno, ficaríamos trêmulos abraçados aos nossos fantasmas até notarmos que fantasmas não existem e que, com regularidade e paciência, dava pra recuperar. O paradoxo é que fomos, finalmente, campeões na "Era dos Pontos Corridos", mas continuamos sem saber lidar com esta fórmula de disputa. Ela, e não os rivais, nos enlouqueceu. Flamengo, Galo e Santos ameaçaram pouco, e por pouco tempo, nossa liderança.
Mas eu entendo e gosto que a gente não aceite esta versão da história. Se não foi assim que aconteceu, vai ser assim que gostaremos de contar.
A cena das cenas
Já vi muita coisa bonita em campos e estádios de futebol. Poucas tão belas quanto a substituição de Jaílson por Fernando Prass. Do abraço dos jogadores no número 49, passando pelo aplauso unânime do estádio e terminando no sorriso de nosso camisa 1. No futuro, em qualquer resumo de três parágrafos sobre este título, aquela cena tem que constar. Ela explica quase tudo.
Jaílson, o homem que não se distrai, não conseguiu acenar sorridente para o público como um astro faria. Mal levantou o rosto, saiu de campo olhando fixamente para o chão. É o mais brasileiro dos campeões brasileiros, um tipo sem paciência nem traquejo para firulas e auto-promoção. Casca Grossa, desconfiado, pedra bruta para um fotógrafo ou um documentarista: na contramão do futebol mercado em HD, nada nele é fabricado. Muque de peão, suor de quem mais esperou que jogou, e são assim os jogadores de futebol nas inúmeras camadas inglórias da profissão. Você conhece alguém assim em sua família ou círculo de amigos.
Já Fernando Prass está, junto de Dudu e Vitor Hugo, na lista dos campeões de 2015 e 2016 que atuaram em grande nível nas duas. Zé Roberto, que O Periquitão aqui desancou quando a fase era péssima, fez um ótimo segundo turno. Mina e Moisés, Dracena e Tchê Tchê, eu busco na memória e não encontro vestígios de pecado. Impecáveis. Já são nove citados aqui, e caberiam outros nove. Personagem não falta nesse time, de Alecgol a Jeanzinho, de Thiago Santos Em Nome do Pai até Fabiano do Gol do Título, mas, enfim, e Gabriel Jesus?
Talvez seja cedo para, aos 19 anos, saber de verdade que toda decisão tem sua consequência e sua parte dolorosa. Que a Inglaterra e o futebol sejam generosos a este menino, que me emociona de um jeito confuso, que eu não sinto naturalidade neste tchau prematuro nem confio que um dia volta mesmo (e não quero esperar por isso, é uma expectativa dolorosa, e não era hora de partir ainda, droga), mas que me deu um afeto puro que a gente garimpa e não acha hoje em dia nas arquibancadas cada vez mais perto do campo e longe dos atletas. Gabriel Jesus joga em nossa cara que o mundo é vasto, muito vasto, e um camisa 9 de seleção só pode ser nosso por curtos períodos de tempo. É o menino mais gente boa que eu vi nascer no clube. E o melhor jogador de linha também.
"É Campeão" e "Eu Te Amo" a gente só deve dizer quando tem certeza. Os pais palmeirenses disseram as duas coisas a seus filhos, palmeirenses ou não. Nem rouco nem louco nem nada, acendi uma churrasqueira, tomei um pouco de chuva, peguei um táxi, andei, deitei e dormi zapeando a TV como em um dia comum. Meu título mora, em paz, nos abraços e mensagens que dei e recebi. E nas cócegas de quem há de crescer fazendo do Palmeiras, apesar de tudo, um lugar legal para se estar.
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o resumo do sentimento palmeirense.
Boa!!!!