Duas bolas na mesma trave, uma de cada time. O primeiro lance de perigo do jogo e o último. Entre eles, uma grande noite de futebol encerrada por dez minutos de absoluta magia, em que o resultado agregado de 4 x 4 – inimaginável até o minuto 90 – esteve, duas vezes, a um palmo de acontecer. A ingrata missão de projetar um jogo de futebol reservava algumas obviedades para o reencontro entre Palmeiras e Botafogo . Como o time dirigido por Abel Ferreira lidaria com Luiz Henrique, o jogador mais perigoso do futebol brasileiro com espaço para correr, era uma delas. Como o Botafogo se comportaria caso levasse o primeiro gol, outra.
Uma partida dessa proporção, porém, com massivo potencial futebolístico e proporcional capacidade de repercussão para o ambiente bélico que o jogo adquiriu no país, certamente redigiria a própria história. E que história ela redigiu. Em termos de dinâmica, o início mostrou um destaque individual diferente. Não que fosse uma surpresa a aparição adolescente de Estevão como principal incômodo ao time carioca, especialmente porque a defesa visitante se permitiu enfrentá-lo com marcação simples, contrariando a ideia de que o time que está em vantagem não tem motivos para se expor a riscos.
Ao Botafogo parecia não interessar a opção de chamar o oponente – obrigado a mexer no placar para sobreviver – para seu campo e trabalhar no espaço, mas tampouco demonstrou, salvo um ímpeto nos primeiros minutos em que Savarino balançou a trave de Weverton, força para pressionar acima. O resultado foi um jogo desequilibrado até o intervalo: o Palmeiras com a bola e a iniciativa; o Botafogo com o placar e a sensação de jogar a partida errada, aumentada pela virtual ausência de Luiz Henrique, limitado desde a marca da meia hora por um problema na perna direita.
Quando os times voltaram do vestiário, o Botafogo não tinha mais sua grande ameaça em campo, substituída por Matheus Martins. A brilhante defesa de John para impedir um gol de Flaco López poderia indicar um longo segundo tempo para o Botafogo se a postura retraída fosse mantida, mas o jogo tem caprichos que se disfarçam perfeitamente.
O que se viu depois salientou a magnitude de um gol não marcado para um time que tem lidado com uma evidente dificuldade para concluir movimentos. Quando Igor Jesus enviou para a rede a jogada de Matheus Martins com Savarino, o Botafogo se sentiu fazendo precisamente o jogo que queria. E aí as obviedades se materializaram com nomes distintos, porque o elenco comandado por Arthur Jorge oferece variação para tal.

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