O Palmeiras voltou para casa de La Paz com mais três pontos na bagagem, mantendo a liderança isolada e os 100% de aproveitamento na CONMEBOL Libertadores após vitória por 3 a 2 sobre o Bolívar . E tudo isso na altitude de 3.650 metros da capital boliviana. A saga do Verdão em solo boliviano, porém, não se resumiu somente aos 90 minutos disputados no Estádio Hernando Siles, e começou muito antes do pontapé inicial na última quinta-feira (24). Coordenador científico do Palmeiras, Daniel Gonçalves explicou à ESPN como foi toda a preparação nos bastidores para que os jogadores sofressem menos com os efeitos da altitude. E detalhou o protocolo adotado pelo clube, que ele classificou como uma "quebra de paradigma" no futebol sul-americano.
Diferentemente do que fazem outros clubes, sendo eles brasileiros ou não, que quando jogam na altitude chegam ao local da partida poucas antes do apito inicial ou com uma semana de antecedência, o Palmeiras chegou a La Paz dois dias antes do duelo contra os Celestes . "Jogar em uma altitude de 3.650 metros, como a de La Paz, causa prejuízos consideráveis à performance esportiva. São dois os aspectos que temos de levar em conta. O primeiro é a hipóxia, que é promovida pela pressão atmosférica reduzida. Quando o atleta faz a inspiração para levar oxigênio aos tecidos, ele acaba encontrando menos oxigênio do que está habituado ao nível do mar, comprometendo a sua performance em cerca de 20% em fatores como corrida e resistência", disse.
"O segundo é o 'soroche', o chamado Mal da Montanha. Ele começa a se manifestar 6 horas após a chegada à cidade e atinge o pico depois de 2 a 3 dias. Ele é promovido por uma desregulação na relação ácido-base e gera percepção de dor de cabeça, tontura, enjoo, náusea e fadiga. Nós conseguimos minimizar estas dificuldades por meio de medicação e hidratação, que é monitorada constantemente", prosseguiu. "Acreditamos que, quando o atleta identifica antes do jogo estas dificuldades inerentes à altitute, ele consegue se preparar para lidar melhor com elas.
Por isso, sempre realizamos dois treinamentos na cidade, seja em La Paz ou em outras de menor altitude, para que os atletas consigam identificar a hiperventilação, que no meio esportivo nós chamamos de 'abafar'. Conhecendo previamente esta sensação, ele entende quanto tempo demora para se recuperar e que essa é uma condição limitante, mas não incapacitante." "Outro aspecto positivo gerado por estes treinamentos na altitude está relacionado a questões de cinemática e dinâmica. Em uma altitude elevada, com pressão atmosférica reduzida e menor número de moléculas de ar, a trajetória da bola e dos próprios corpos dos atletas é modificada. Quando os atletas percebem essas mudanças, ficam mais preparados para a partida, tanto nos aspectos ofensivos, como trocas de passe e chutes a gol, quanto nos aspectos defensivos, como bolas longas e cruzadas."
A vitória de quinta foi apenas mais uma do Palmeiras nestas condições, ampliando o bom desempenho do Verdão na altitude. O time já havia vencido o Bolívar em La Paz pela competição em 2020 , e também somou duas vitórias contra Independiente del Valle ( 2021 e 2024 ) no Equador e uma contra o Oriente Petrolero , em 2022 , novamente na Bolívia. Daniel atribuiu o histórico positivo do Palmeiras na altitude ao protocolo, em um trabalho multidisciplinar conduzido pelo Núcleo de Saúde e Performance (NSP), com o suporte da área de logística.

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