Confira como foi o principal dia da carreira de Jailson
Eu escolhi o dia da minha estreia no Brasileiro. Eu tinha o sonho de jogar na Série A e meu jogo que não sai da minha cabeça foi a minha estreia, contra o Vitória.
A notícia de que jogaria
Eu fiquei sabendo depois do jogo da Chapecoense. O Vagner não foi bem no jogo e eu fiquei sabendo pelo Oscar, treinador de goleiros, que eu iria jogar. Ali já começou o frio na barriga. Na hora eu já liguei para a minha esposa e falei “Mônica, vou jogar o próximo jogo, já estou ansioso e não veja a hora de começar esse jogo logo”. Eu indo pro ônibus, de cabeça baixa, a gente tinha empatado o jogo, e aí o Oscar me chamou, falou “você vai jogar” e pronto. Ai, pô, um frio na barriga do caramba. Fomos para o hotel e no outro dia voltamos para São Paulo. Fomos pra concentração um dia antes e eu nem conseguia dormir direito, pensando o que iria fazer no jogo, ansioso pra caramba em ver a reação da torcida também, porque ninguém me conhecia.
Ansiedade
Fazia 22 anos que o Palmeiras não era campeão Brasileiro e aquela oportunidade caiu nas minhas mãos. Um dia antes eu pedi a Deus e Nossa Senhora Aparecida, que eu sou devoto, que me iluminasse, que eu queria fazer uma boa estreia. Lembro que não conseguia dormir, deitei para dormir umas 23h30, olhava para um lado, para o outro, e nada de vir o sono. Eu fiquei muito ansioso mesmo. Aquilo ali era um sinal positivo porque toda vez que eu vou jogar e dá uma ansiedade muito grande em mim, eu faço um grande jogo. Então, pra mim, foi uma ansiedade muito grande estrear naquele dia e contra o Vitória também.
Quarto do hotel
Estava eu e o Vagner ainda, naquela época ficava com o goleiro no quarto, hoje em dia cada um tem o seu quarto, mas naquela época eu fiquei com o Vagner. E ele estava cabisbaixo e tudo, porque ele tinha saído do time, o que é normal à pessoa sentir. Eu ficava mexendo no telefone, ligando para a minha esposa para ver se a hora passava logo, e ficava vendo uns lances meu, treinando, para me dar mais motivação maior para o jogo. Demorei pra caramba para pegar no sono. Quando acordei eu falei “Nossa, é hoje! É hoje! Tenho que mostrar meu cartão de visitas, mostrar quem é o Jailson” e graças a Deus, pude fazer um grande jogo.
Conversa com Cuca
Ele me falou para fazer um bom jogo. Falou “vai lá, faz um bom jogo, faz o que você está fazendo nos treinos e a oportunidade chegou para você. Vai lá e mostra que você é capaz”. Foi desse jeito. Aí ele foi mostrando as faltas, tudo certinho.
Ida ao estádio
Eu não via a hora de chegar logo, durante o caminho. Chegamos perto do estádio, a torcida gritando. Se eu não me engano, eles nem sabiam que eu ia jogar. Eu não via a hora de começar o aquecimento. Dá (frio na barriga) pra caramba. Tinha 35 anos na minha estreia na Série A.
Vestiário
Quando eu vou jogar, fico mais reservado na minha. Quando eu não vou jogar, fico mais solto, conversando com o pessoal. Ali, no dia, estava mais reservado mesmo porque era a minha estreia na Série A. Nossa senhora, a barriga parecia que ia saltar pra fora, estava muito ansioso para começar o jogo.
Ligação da avó antes do jogo
Eu liguei antes para ela, falei “vó, vou jogar, vou estrear tal dia”, e ela falou “bom jogo, vai com Deus, que Nossa Senhora Aparecida te acompanhe”. Aí no dia do jogo, ela ligou “como é que você está? como está o coração?”, ela sabe, né? O coração já estava a milhão.
Entrada no gramado
Na hora que eu subi para aquecer, eu sempre olho para a minha esposa. Ela estava no cantinho dela já, ela já mandou para mim forças, e aí ei já fiquei um pouco mais sossegado. Penso em tudo o que passei na vida para chegar naquele momento ali. Estrear. Passou todo um filme na cabeça. Onde eu comecei, as pessoas que me ajudaram a chegar onde cheguei. Passa esse filma na cabeça, sim.
Começo do jogo e primeira defesa
Quando começou o jogo, eu não via a hora de a bola chegar logo no gol, para fazer a primeira defesa, para ver se eu estava pronto mesmo. Ficava pensando “tomara que venha logo o primeiro chute para eu entrar no clima do jogo”. (A primeira defesa) Foi fundamental, porque se eu tomo um gol ali, a torcida já ia começar a cobrar, ninguém sabia quem era o Jailson. Imagina se eu tomo um gol no primeiro lance? Os caras já iria cobrar bastante. Se não me engano, foi um cruzamento do lado direito, o cara cruzou para a área. Acho que o Dudu, ao invés de tirar pra frente, ele tirou pro meio da área, aí caiu no pé do Kieza. Eu estava na esquerda e a bola caiu no Kieza na direita, e eu corri, fechei o ângulo, ele chutou em cima de mim, e eu tirei com a perna direta e o estádio já foi ao delírio na primeira defesa. Foi um chute a queima roupa, estava na pequena área, tinha uns cinco metros eu acho. Aí falei “agora já mostrei meu cartão de visitas”, aí fiquei mais sossegado.
Gols do Palmeiras
Falei “ah, vou começar bem”, sem tomar gol, né? Se não me engano, fizemos 2 a 0, aí acabou o primeiro tempo. Aí no comecinho do segundo tempo, tomamos o gol, falei “não, não podemos perder, não”, e já passava na cabeça também, 22 anos sem ser campeão, estava numa fila muito grande, aí falei “agora é a hora de mostrar o meu potencial e começar bem”.
Intervalo
No intervalo eu fui sossegado, porque a gente estava ganhando. Ali a agente só descansou, o Cuca arrumou algumas peças que tinha que arrumar, e nisso passou 15 minutos rapidinho, já subimos para o campo rapidinho.
Fim de jogo
Ajoelhei, agradeci a Deus, falei “comecei bem” e, cara, não foi fácil não, hein? Eu lembro que estava no gol do fundo, saí, olhei para minha esposa, acenei, ela também. Aí fomos para o vestiário. Lembro que o presidente pediu a minha camisa e eu falei “não, essa eu vou guardar. Essa primeira, não” (risos).
Após a vitória
Lembro como se fosse hoje, a primeira pergunta foi: como é substituir o Prass e o Vagner? Foi essa a primeira pergunta. E eu fui bem sincero, disse: cara, não é fácil, como também não foi fácil pro Prass, quando chegou no Palmeiras também, aquela cobrança de Marcão, Marcão, Marcão. Então, para mim, foi sossegado.
Conversa com Oscar no vestiário
Desci pro vestiário, o Oscar estava, o treinador de goleiros. Tenho um carinho muito grande por ele, chamo ele de pai. Quando eu cheguei no Palmeiras, tinham sete goleiros. Aí eu cheguei, ele me abraçou muito e falou assim “você vai ficar comigo aqui, e você só sai daqui se você quiser”. Depois do jogo eu abracei ele, chorei no ombro dele e ele disse pra mim “isso aí é só o começo”.
Ligação do Marcão
Lembro que depois que acabou o jogo, o Marcão me ligou também, e ali começou o meu contato com o Marcão, a minha amizade. Ele deu os parabéns, falou que comecei bem pra caramba e ele falou que no final iriamos ser campeões. Até quando foi campeão, fiz uma homenagem para ele, usei a camisa número 12 escrito Marcos. Se não me engano, eu estava vindo para São José. Eu vi um número, estava 011, falei “quem que é? Ah, vou atender” aí ele falou “oh, Jailson, parabéns” aí eu falei “obrigado. Quem é?” “Marcão” aí eu não acreditei, pô, não acreditei (risos). Marcão me ligando, pô (risos).
Amizade com Marcos
Ele é um ídolo, um cara top do Palmeiras. Um cara que vejo os vídeos até hoje do Marcão. De vez em quando ligo pra ele, a gente conversa e troca mensagem também. É um cara que tenho um carinho muito grande por ele. Ele também tem um carinho muito grande por mim, ele já falou. O filho dele também já usou a minha camisa, fez umas defesas na casa dele, ele gritou “Jailson”, para mim, isso aí, é sensacional.
Peso de ser goleiro no Palmeiras
A gente carrega um peso muito grande, porque o Marcão ganhou tudo no Palmeiras. Aí o Prass também ganhou vários títulos por onde jogou também. É ídolo da torcida. Aí os caras falam “pô, quem é Jailson?”, ninguém sabia quem era o Jailson. Carrega um peso muito grande, sim. O Próprio Weverton quando chegou, começou a jogar, carrega um peso muito grande. Porque você vê, Leão, Marcos, Sergio, Velos, só goleiros tops. Vestir essa camisa é para poucos.
Fama
Eu continuo o mesmo Jailson de quando chegou no Palmeiras e hoje. Ando na rua, vou em todo o lugar, pego meus cachorros, passeio com os cachorros, e o pessoal fala “nossa, mas você está aqui, passeando com os cachorros, você é o Jailson!” eu falo “gente, eu sou de carne e osso que nem vocês”. Minha vida mudou bastante, shopping, essas coisas, mudou bastante. Eu continuo do mesmo jeito, humildade sempre. Vou pra todos os lugares que tem que ir, minha esposa fica até um pouco brava, fala “não, fica em casa, deixa que eu vou”, mas eu continuo do mesmo jeito.
Cuca
Ele me ajudou bastante. Ele me colocou pra jogar. Fique um ano e meio só treinando, esperando aparecer a oportunidade, e como goleiro só pode jogar um, fiquei um ano e meio só treinando. Quando apareceu, ele m colocou pra jogar e fomos campeões. Depois ele saiu, voltou no outro ano e ele até brincou comigo, falou “achamos o campeão brasileiro”, aí eu falei “não, tá louco? Não ganhei sozinho, não” falei pra ele.
Momento mais marcante do dia
Foi a primeira defesa. O primeiro lance ficou muito marcado porque ninguém conhecia quem era o Jailson. Quando eu cheguei, fui muito criticado, as pessoas falaram muitas coisas. Até a minha mãe ficou chateada e eu falei “não, mãe. É assim mesmo, time grande é assim mesmo”, e minha esposa “não, mas estão xingando demais”, e eu falei “não, deixa. Deixa que xinga. Isso aí para mim, é o combustível” Falaram muitas coisas, eu guardei muitas. Depois daquilo ali, chegou no final, nós fomos campeões. Os mesmos que xingavam, aplaudiram. Torcedor é assim, eles agem com a emoção.
Família
Ela (esposa) também é atleta. Ela joga handebol. Ela me passa total confiança. Cobra na hora que tem que cobrar. Ela tem um papel fundamental na minha vida. Depois que eu conheci ela, minha vida mudou muito. Eu fui criado com a minha avó. Meu pai e minha mãe separaram eu tinha 13 anos. Meu pai me chamou, me lembro como se fosse hoje, ele me chamou e falou “o pai e a mãe não dá mais certo, você já tem 13 anos, já entende muito bem. O pai e a mãe briga bastante. Pai vai pegar as meninas, se você quiser ir embora também, você vai com a gente”, aí eu falei, “não, quero ficar com a minha avó”. Minha avó me cria desde os 13 anos. Fiquei morando com a minha avó dos 13 até os 20. Depois dos 20 comecei a minha vida no futebol. E depois conheci a dona arará (esposa) que eu brinco com ela, e minha vida mudou bastante depois que eu a conheci e que casei também.
História no Verdão
Quando eu cheguei no Palmeiras, já comecei a fazer história, porque eu sou o primeiro goleiro negro a vestira camisa do Palmeiras. Ali eu já comecei a fazer história. Jogo do Vitória, no último do primeiro turno, eu estreei, e no último do segundo turno, contra o Vitória também, ficamos 18 jogos sem perder. Depois já começou o Paulista e foram 500 dias sem perder. Nunca imaginei isso, não.
2727 visitas - Fonte: Globoesporte.com
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Um goleiro exemplar.
Saoo Jaílson, monstro IDOLOOOOOO, sou seuu fã, q história parabéns ??????????