Quando meu despertador tocou, às 7h da manhã do último sábado, acordei feliz da vida.
Afinal, na sexta-feira, eu tinha sido pautado para ir a um evento muito legal aqui no Rio de Janeiro, ao lado do também repórter Mendel Bydlowski, do cameraman Sidney da Matta, o Sidão, e o assistente Fábio Barbosa, o Magrelo.
Nossa missão na parte da manhã era entrevistar alguns dos maiores nomes da história do futebol sul-americano e mundial: os argentinos Javier Zanetti e Fernando Redondo, o chileno Marcelo Salas e o colombiano Adolfo Valencia.
Eles estariam presentes em evento de uma patrocinadora, em um hotel na Barra da Tijuca, e teríamos a oportunidade de conversar com todos eles sobre diversos temas.
Mais tarde, por volta das 18h, tínhamos outra boa entrevista: o técnico Luiz Felipe Scolari, do Palmeiras, também compareceria a um evento no Rio e nos daria entrevista. E quando Felipão fala, sempre sai coisa boa.
Na teoria, era um dia cheio, mas que renderia ótimo conteúdo. Por isso o ânimo logo às 7h da manhã.
Desci para tomar o café da manhã no hotel em que estamos hospedados e encontrei o Sidão, que tem cara de bravo, mas é um amor de pessoa. Batemos um papo, e a conversa estava boa até que nós dois nos servimos de pudim. Ficamos mudos. Nossa, que pudim gostoso!
“Tá bom demais, né?”, perguntou o Sidão.
“Maravilhoso. Parece o pudim que tinha lá em casa”, suspirei, lembrando dos tempos em que eu ainda morava com os meus pais, em Ribeirão Preto-SP, antes de me mudar para São Paulo, aos 17 anos, para fazer a faculdade de jornalismo.
Como estou há quase um mês em viagem na cobertura da Copa América, imediatamente bateu saudades da família. Hoje vejo meus pais muito pouco, pois estamos separados por 320km entre São Paulo e Ribeirão Preto. Sempre trocamos mensagens no celular, mas não é a mesma coisa que dar um abraço gostoso.
Mas é engraçado como tem horas que parece que o pensamento parece se transmite. Um pouco depois do café da manhã, meu pai me enviou uma mensagem dizendo que tinha gostado de assistir às minhas participações ao vivo na ESPN na sexta-feira, quando fiz a cobertura do atrapalhado treino do Peru ao lado do colega Pedro Henrique Torre.
“Estava assistindo aos seus vídeos de ontem que a mãe gravou de você. Está cada vez melhor!”, escreveu meu pai, que sabe que não sou um grande fã de aparecer em frente às câmeras (prefiro escrever), mas aos poucos estou me acostumando.
Fiquei feliz.
Nosso motorista chegou e rumamos para a Barra da Tijuca. No carro, ele logo disse que era torcedor do Fluminense, e mostrou que o hino do Tricolor das Laranjeiras era seu toque de celular. Também demonstrou sua infelicidade com a possibilidade de perder o atacante Pedro para o rival Flamengo.
"Eles não podem ver um jogador nosso se destacando que já crescem o olho", reclamou.
Depois, foi me contando uma história divertida de quando transportou um grupo de franceses que não falavam uma palavra sequer de português. Não guardei os detalhes, mas lembro que ela terminava com todo mundo tomando água de coco na praia.
Como disse o poeta Mário Quintana, “não há nada que substitua o sabor da comunicação direta”.
Chegando ao evento, tudo correu às mil maravilhas. As entrevistas foram boas e os entrevistados se mostraram bastante simpáticos.
Fiquei impressionado com a educação do Redondo, que foi extremamente cortês e se despediu dos vários jornalistas presentes apertando a mão de cada um e dizendo que havia sido um prazer participar das conversas. Um verdadeiro lorde.
Já o Salas me chamou a atenção por sua sinceridade. Perguntei a ele, que foi um exímio finalizador, como poucos na história do futebol, o que tinha achado do pênalti de “cavadinha” batido pelo Vargas quando o Chile perdia por 3 a 0 do Peru, pela semifinal da Copa América.
“Com o resultado que o Chile estava levando, esse pênalti tinha que ter sido batido de uma outra forma. Ao menos com um pouco mais de responsabilidade”, detonou, sem medir palavras.
O JOCKEY CLUB DA GÁVEA
Felizes com o sucesso da primeira empreitada, partimos para o almoço, já que a fome apertava.
Eu, Mendel e Sidão dividimos um bom filé à parmegiana, enquanto o Magrelo foi em outro lugar comer algo mais leve em outro local, pois estava um pouco indisposto.
Na sequência, checamos nossa programação: o Mendel tinha que fazer uma entrada às 15h30 na programação para falar sobre as entrevistas da manhã, então já rumamos para o Jockey Club Brasileiro, na Gávea. Afinal, lá teríamos um belo cenário para o ao vivo, e depois já ficaríamos para o evento com o Felipão, que estava marcado para 18h.
Quando chegamos ao Jockey, fiquei boquiaberto com a beleza do local, que foi fundado em 1932. Os prédios, ainda que decadentes, ainda preservam aquele charme da “era de ouro” do Rio de Janeiro. Fora a vista para o Cristo Redentor, que dispensa palavras.
Quando o ao vivo do Mendel terminou, já eram quase 16h. Só precisávamos esperar duas horinhas e logo mais estaríamos frente a frente com Felipão.
Deixamos perguntas já prontas e ficamos pensando quem deveria fazer cada uma. Estávamos animados para conversar com o experiente treinador sobre temas como a seleção brasileira, a Copa América e o Palmeiras.
Enquanto isso, estava rolando o jogo entre Argentina e Chile, pela decisão do 3º lugar da competição da Conmebol, mas não tínhamos TV para assistir, nem Wi-Fi para acompanhar pelo celular. O jeito foi seguir pelo Twitter e ir se informando dos principais acontecimentos.
Logo após a expulsão do Messi, pipocou na timeline uma notícia engraçada: “Bruna Marquezine conta que já andou de metrô: 'Minha mãe não sabe'”. Mostrei para o Mendel, que também adora essas bizarrices, e morremos de rir. Ficamos brincando de criar manchetes absurdas – algo que poucos fazem como o gênio Bydlowski.
O tempo foi passando e nos preocupamos ao acompanhar um lance do campeonato de futebol que estava acontecendo também em um espaço especial montado ali no Jockey. O Fred, do canal de YouTube “Desimpedidos”, que vem comandando o “Desafio de Talentos” na ESPN, se desequilibrou durante uma jogada e caiu feio no chão, machucando a clavícula. Ele teve que sair de maca e voltou com uma tipoia e cara de muita dor. Coitado.
Vendo os cavalos na pista de corrida do Jockey, resolvemos também apostar “de mentirinha” em quem iria ganhar os páreos. Foi o Magrelo que chamou a primeira rodada.
“Eu aposto no 7”, cravou.
"Vou no 8”, escolheu o Sidão.
“Eu quero o 3”, falei, do alto do meu conhecimento sobre cavalos (que é o mesmo que possuo sobre física quântica).
O Mendel estava meio distraído, então na hora que perguntamos a ele qual seria sua aposta, ele também optou pelo número 3.
“O 3 eu já escolhi”, argumentei.
“Então vou no 5”, ele respondeu no ato.
Juro que na hora pensei: “Só porque eu quis ficar com o 3 e ele pegou o 5, tenho certeza que o 5 vai ganhar”.
Dito e feito: no photo finish, o cavalo 5 terminou em 1º lugar.
Sorte que a aposta era de brincadeira, senão o prejuízo teria sido grande...
FOME
Quando acabou o jogo da Argentina, logo o Twitter começou a nos bombardear com as declarações pesadas de Lionel Messi sobre a Copa América. O camisa 10 disse que a competição estava “armada para o Brasil ganhar”, e sequer foi a campo pegar sua medalha de bronze, afirmando que não queria fazer parte daquela “corrupção”.
Ficamos comentando um tempo sobre o tema, e o Mendel lembrou bem que o Messi jamais havia se posicionado sobre praticamente nada com tamanha força durante toda a sua carreira, especialmente sobre arbitragem.
“É uma mudança de paradigma”, ele decretou.
Eu concordei, mas argumentei: “Só espero que ele se manifeste também quando os erros forem a favor do time dele, principalmente no Barcelona”.
Em seguida, tiramos sarro um do outro dizendo que somos melhores comentando notícias bizarras da internet, como a Marquezine andando de metrô, do que acontecimentos do futebol.
Quando eram 17h e alguma coisa, enviei uma mensagem à assessora que estava cuidando do evento do Felipão perguntando sobre qual seria o local da entrevista. Ela pediu para aguardarmos um pouco que já estava resolvendo isso, e em breve daria notícias.
Foi chegando perto das 18h e nada...
Resolvi dar uma olhada no WhatsApp e minha namorada tinha mandado um meme engraçado de uns cachorros. Bateu muitas saudades dela também. Fazer essas coberturas de grandes eventos é muito legal, mas é ruim ficar longe das pessoas que a gente gosta.
De repente, a assessora surge com uma cara desanimada nas arquibancadas do Jockey, onde seguíamos aguardado como monges tibetanos desde 16h.
“Pessoal, tenho uma notícia não muito boa... O Felipão vai atrasar e só chegará às 20h”, informou.
Ficamos tristes com a notícia, mas não havia alternativa a não ser seguir esperando.
Afinal de contas, nossa missão era entrevistar Scolari, e seguíamos confiantes em sair de lá com o depoimento do bigodudo!
As atividades para passar o tempo já haviam acabado. A bateria dos celulares ia entrando no modo de economia. E eu tinha desistido de apostar nos cavalos até de brincadeira, de tantos palpites que errei.
Para piorar, foi ficando frio, com um vento muito gelado. E ela chegou de forma avassaladora por volta das 19h: a fome.
Era algo que não estava nos planos. Nesse horário, já imaginávamos que estaríamos finalizando a entrevista e rumando em seguida para um belo jantar em algum restaurante na capital fluminense.
Mas nosso esquema caiu de forma brutal: Felipão ainda ia demorar, e o jeito seria comer um lanche lá no Jockey mesmo para aguentar firme até a chegada do treinador palestrino.
O Mendel pediu um lanche que eu nunca tinha visto: um “hambúrguer mexicano”. Ele vinha com pão brioche, carne, queijo, nachos e guacamole. Achei interessante e resolvi pedir um igual, mas já havia esgotado, para minha enorme decepção.
Faminto, acabei optando por um burrito, que estava deliciosamente apimentado, e por uma quesadilla de frango. Ambos estavam bem gostosos, e o Sidão até filou uma fatia da tal quesadilla.
Fiquei pensando se os turistas mexicanos, quando visitam o Brasil, ficam ressabiados com nossas versões adaptadas das comidas deles.
É um pensamento parecido com o que tenho da nossa comida japonesa: quando os orientais vêm para cá, o que será que eles acham dos sushis com cream cheese, dos sashimis com morango e goiabada e tantas outras esquisitices que inventamos?
Mas estou fugindo do tema.
Com estômago forrado, seguimos aguardando como guerreiros, enquanto a temperatura caía cada vez mais. E o Magrelo, que tem quase 2 m de altura, reclamou que nenhum casaco fica bom nele, já que quase todos ficam curtos na parte da cintura.
De início, achei engraçado, mas depois passei um tempo pensando nos dramas que as pessoas altas passam.
Lembrei de um amigo de Ribeirão Preto que tinha que ir a algumas lojas especiais para comprar tênis tamanho 46. E me deu até dor nos joelhos ao imaginar como uma pessoa de quase 2 m se acomoda numa cadeira de avião, por exemplo.
Enquanto isso, as pessoas que passavam e nos viam com os uniformes da ESPN aproveitavam para puxar papo. Tiravam fotos com o Mendel e mandavam recados para o Mauro Cezar Pereira. E, como acontece em todas as coberturas, sempre tem um que passa e pede: "Manda um abraço para o PVC".
E nada do Felipão chegar...
FINALMENTE... FELIPÃO!
Pouco depois das 20h, veio o anúncio que esperávamos há mais de quatro horas: Luiz Felipe Scolari havia chegado!
Rumamos para o espaço designado pela assessoria do evento, ao lado da quadra onde aconteceria a entrevista, e ali aguardamos ao lado de outros colegas da imprensa e uma multidão de convidados, formada pelo crème de la crème da juventude carioca.
E aguardamos...
E aguardamos...
E aguardamos...
Quando a situação se aproximava do motim, finalmente fomos liberados para entrar no espaço e armar os equipamentos para fazer aquela entrevista tão aguardada.
Em seguida, surgiu Scolari, vestindo camisa social, suéter com formas geométricas, calça jeans e um belo par de sapatos, figurino tão diferente dos agasalhos esportivos que usa nos treinos e jogos do Verdão.
Parecia tudo certo.
Mas foi aí que o mundo desabou.
Já estava tudo pronto: câmera ligada, som testado, bloquinho em mãos com as perguntas, e veio o anúncio que caiu como uma bomba no coração dos intrépidos profissionais da imprensa: Felipão não daria mais entrevista.
Sim, isso mesmo: Felipão NÃO daria mais a entrevista que havia sido prometida ainda na sexta-feira pela organização do evento.
De início, eu não acreditei. Pensei que, depois das ações do patrocinador, como as fotos com o time que havia vencido o torneio de futebol, ele ao menos responderia duas ou três questões.
Não conseguia acreditar que ali no gramado, agora já com cinco horas de espera, voltaríamos para casa de mãos vazias.
Tão perto... Mas tão longe...
Não teve choro, nem vela: apesar das súplicas, Felipão, de fato, não falou.
Simpático e solícito, tirou muitas fotos com participantes do evento e acenou para quem gritou seu nome ao redor da quadra.
Encerrada sua participação, saiu rapidamente pela porta e sumiu em meio à multidão sem deixar rastros.
Eu não conseguia acreditar.
Mas não teve jeito. Era melhor aceitar logo a derrota.
Após juntarmos os cacos de nossos corações despedaçados, recolhemos os equipamentos e saímos do Jockey para tomar um táxi e retornar ao hotel.
Assim que embarcamos em um, contei nossa história ao motorista, que parecia intrigado.
Ele se mostrou solidário com a situação, mas também deu um leve sorriso no rosto, sem dizer nada, mas como se pensasse: “Meu amigo, se você já soubesse cada uma que aconteceu comigo nesse táxi...”.
Chegamos ao hotel quase 22h, e eu fui para o meu quarto pensando no que iria escrever para o domingo. Afinal, se não havia entrevista, que raios eu iria publicar no dia seguinte?
Sentei ao computador e acabei fazendo este texto.
Quanto estava para finalizar, pensei em concluir com alguma frase do próprio Felipão. Matutei, matutei, matutei, e resolvi ir com uma que já ouvi em tantas coletivas de Scolari que já participei como repórter setorista do Palmeiras.
“Tem dias que a gente tenta, tenta, tenta... Mas a bola não entra”.
Pqp...que livro é esse que o cara escreveu???? memórias de um repórter....pelo amor de Deus, que coisa chata.