23/5/2020 16:32

Panorama do futebol feminino: pandemia afeta elite do futebol feminino, mas maioria dos clubes mantém salários

Levantamento do GloboEsporte.com sobre os 16 times da elite do futebol feminino no Brasil aponta que quatro clubes cortaram ou não pagaram salários das atletas

Depois de uma série de denúncias envolvendo os clubes da Série A2 do Campeonato Brasileiro feminino, o GloboEsporte.com investigou como está a situação em cada um dos 16 clubes da Série A1 da Confederação Brasileira de Futebol, a elite da modalidade no país. A reportagem procurou atletas de todos os clubes.



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Oito clubes são filiados à Federação Paulista de Futebol. A entidade paulista desenvolveu uma série de medidas para monitorar e ajudar os clubes da região durante a paralisação e, até a publicação desta reportagem, não havia recebido denúncias sobre irregularidades no repasse de dinheiro.

Veja abaixo como está a situação ao redor do país na divisão mais importante do futebol feminino brasileiro, após o repasse de R$ 120 mil por parte da CBF a cada um dos 16 clubes da Série A1.

Região Sudeste

Dos 16 clubes, dez estão concentrados na região Sudeste do país. Destes, Audax, Corinthians, Ferroviária, São Paulo, São José, Santos, Palmeiras e Ponte Preta são do estado de São Paulo.

O Audax teve problemas iniciais no repasse do dinheiro, mas os pagamentos foram efetuados depois que a CBF pressionou a diretoria do clube. Gustavo Teixeira, diretor do Audax, diz que a verba de auxílio vai cobrir a folha salarial das atletas por quatro meses.

Palmeiras e São Paulo mantêm o salário integral do time feminino até o presente momento, sem cortes. O mesmo acontece com a Ferroviária, atual campeã brasileira, e com a Ponte Preta, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem.

No Santos, o corte foi de 70% nos salários de todos no clube que recebem mais de R$ 6 mil, algo que atinge uma pequena parcela do elenco feminino. A maioria tem vencimentos concentrados abaixo desse valor e, portanto, não foi afetada.

No Corinthians, a redução foi de 25% no salário em carteira. O time feminino tem os contratos divididos em 60% carteira de trabalho e 40% de direitos de imagem. Os direitos de imagem não foram pagos em abril.

No São José, a coordenadora Renata Ferreira explicou que em março as atletas receberam 100% do salário pela Prefeitura. Em abril, 50% pela Prefeitura e os outros 50% com o valor enviado pela CBF, mantendo assim o salário integral. Ela diz que é a única modalidade da prefeitura a receber 100% dos vencimentos durante a paralisação, graças à doação da entidade. São 26 atletas e nove membros da comissão técnica. Segundo Renata, dividindo o valor entre abril e maio, será possível manter o pagamento total.

No Cruzeiro, único time de Minas Gerais na elite do Brasileiro feminino, também não há atraso nem cortes. O clube informou que todos os funcionários entraram em férias entre março e abril, receberam o salário normalmente, e o pagamento do valor referente às férias será efetuado junto com o 13º salário, no fim do ano – baseado em artigo da Medida Provisória 936, assinada em 1º de abril e que institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda.

Sobre os R$ 120 mil enviados pela CBF, o Cruzeiro diz que o valor não cobre dois meses da folha salarial do seu departamento feminino, mas ajudou de maneira significativa o planejamento.

O Flamengo, representante carioca na elite, mantém o time feminino em parceria com a Marinha do Brasil desde julho de 2015. A reportagem consultou mais de cinco atletas sobre a situação no clube, mas não obteve resposta. A assessoria do Fla informou que algumas atletas são 3º sargento e recebem através da patente, via Marinha. Outras foram contratadas e recebem pelo Flamengo.

Centro e Sul do Brasil

A situação segue regular nos clubes das Regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Os grandes de Porto Alegre, Grêmio e Internacional, mantêm os salários em dia, assim como o Avaí Kindermann, de Santa Catarina. O mesmo acontece com o Minas Icesp, de Brasília, sem atraso nos pagamentos, de acordo com as atletas ouvidas pela reportagem.

Problemas à vista...

Conforme mostrado na reportagem da semana passada, o fato de a CBF não exigir contrapartida nem condições dos clubes ao repassar o dinheiro deixou os dirigentes livres para usarem a verba em outros setores que não com as próprias jogadoras. Dos 16 clubes da elite, o Vitória, da Bahia, e o Iranduba, do Amazonas, têm os problemas mais graves até o momento.

Atletas do Vitória não recebem salário nem ajuda de custo há pelo menos dois meses, apesar de o clube também ter recebido R$ 120 mil da CBF para isso. O clube foi procurado, mas não havia respondido até a publicação desta reportagem.

Diretor jurídico do clube, Dilson Pereira disse à jornalista Cíntia Barlem que demonstrou preocupação com a situação e que iria apurar sobre os atrasos. Relato de uma jogadora que pediu para não ser identificada aponta até mesmo para problemas com a alimentação. Confira o relato completo aqui.

No Iranduba, do Amazonas, os salários de março e abril também estão atrasados. Procurado, o presidente João Amarildo Pinto Dutra escreveu, em e-mail, que os pagamentos dos dois meses em aberto devem ser feitos até o fim de maio.

A folha salarial do Iranduba no departamento feminino é superior a R$ 72 mil. Portanto, os R$ 120 mil não pagariam dois meses. Segundo, efetuamos o pagamento da folha de fevereiro (que estava em aberto) e quitamos outras pendências do departamento, tais como: aluguel, IPTU, energia elétrica, água, mercado, tributos da folha, transportes, além de uma das parcelas das passagens aéreas que (foram) compradas para as atletas retornarem para suas cidades após o dia 20 de março (todas bem caras, pois, além da urgência, ainda reduziram o número de voos). Terceiro, esclarecendo o valor não era para pagar apenas as atletas, como também a comissão técnica e, sim, também as despesas geradas no departamento feminino dentro do exercício de 2020.

Questionado sobre a falta de contrato profissional de algumas atletas, uma das reclamações ouvidas pela reportagem, o presidente justificou que o agravamento da pandemia de coronavírus em Manaus e as despesas atrapalharam o processo. O clube também enfrenta problemas com patrocinador, uma empresa cuja criptomoeda ainda não entrou no mercado e, portanto, não repassou os valores.O Iranduba diz que trabalha para resolver tal problema até o fim da próxima semana, junto com a empresa de patrocínio máster.

Algumas atletas não têm contrato profissional e outras contrato de vínculo não profissional. Nossa expectativa era entrarem os recursos para assinar o contrato profissional com as demais, pois isso onera em encargos sociais (PIS, Cofins, INSS, FGTS). Porém, além da não entrada dos recursos, a paralisação (não sabemos ainda a data do retorno e nem quais as diretrizes que seremos obrigados a cumprir, até porque hoje a cidade de Manaus é um caso muito sério, sobre a Covid-19), acabou atrapalhando muito nosso planejamento – afirmou Dutra.

CBF se manifesta

A CBF se pronunciou sobre os possíveis desvios das verbas destinadas aos clubes das Séries A1 e A2 do Brasileiro feminino no programa Troca de Passes, do SporTV. O secretário-geral Walter Feldman afirmou que vai investigar os clubes que não cumpriram determinação da entidade.



Quando a CBF, no início da pandemia, repassou aquele recurso era justamente para dar a sustentação aos atletas, para que eles (clubes) pudessem ter um mínimo de condições de, chegando o reinício do campeonato, os plantéis estivessem mantidos. Nós repassamos esses recursos evidentemente com prestações de contas, mas não podemos ter uma ingerência administrativa no clube. Naqueles locais, particularmente em relação ao futebol feminino, que estamos recebendo informações e denúncias de que não foram repassados para as atletas, nós estamos conferindo e solicitando para que isso seja feito. Futebol feminino é prioridade absoluta para nós também.


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