13/8/2020 09:26

"Não tive medo": Salvador do Palmeiras na Série B vive isolado do futebol

Jair Picerni está com 75 anos. Cinquenta deles dedicados ao futebol, seja como jogador ou técnico. Hoje, o treinador que fez história com o São Caetano e levou o Palmeiras de volta à Série A em 2003 vive isolado do esporte que o consagrou, ou ao menos tenta. Apesar de não comandar uma equipe desde 2012, quando trabalhou no União São João de Araras, ele não consegue tirar o futebol da cabeça.



Em entrevista ao UOL Esporte, Picerni conta que sonha com futebol 'quase todos os dias' - e com as mais variadas situações: "Eu joguei e trabalhei 50 anos, então, sonho quase todos os dias que estou dirigindo o jogo, que eu joguei bem, que, pô, tem que dar 'porrada' nestes caras porque não está certo, não... Eu acho que todos que trabalham muitos anos no meio são assim".

A lista de feitos de Picerni é grande. Para citar algumas: título da Série B com o Palmeiras (2003), campeão brasileiro com o Sport em 1987, vice-campeão da Libertadores (2002) e do Campeonato Brasileiro (2000 e 2001) com o São Caetano, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1984... Sem falar no vice Paulista com a Ponte Preta, no histórico Paulistão de 1977.

Será que ele tem saudade de tudo isso? "Eu não digo saudade, mas o grande sonho é disputar títulos, ganhar títulos, formar equipe... Formar equipe pra mim foi um dos grandes méritos que tive. Eu não aceitava empresário trazer e o presidente falar 'tem que jogar'. Jogar na casa do chapéu, rapaz! Comigo não jogava não, cara, tem que ter competência", diz.

"Mesmo no Palmeiras. Pô, pra eu botar dez juniores na equipe principal, não é qualquer um que faz. Eu fiz, não tive medo, mesmo sendo jogador de Copa do Mundo, eu falei: 'Amigo, você está pensando que é o presidente? O presidente é aquele ali, ó", afirma Picerni. "Pelo menos todo mundo fala: eu faço fácil o ambiente de trabalho. Eu joguei cinco anos com o Marco Aurélio, com o Dicá, e, se eles não estivessem bem eu tirava. Alguns jogos eu cheguei a tirar grandes amigos... Agora, trabalho, resultado, já é uma outra coisa", acrescenta.

Jogou no Palmeiras e realizou sonho do pai

Jair Picerni costuma ser lembrado mais como técnico, mas você sabia que ele também teve uma sólida carreira como jogador pelo futebol paulista? Inclusive no Palmeiras, clube pelo qual atuou em algumas partidas depois de iniciar sua trajetória no Nacional-SP, tradicional time paulistano.

"Um amigo foi convidado, deram um cartãozinho pra ele fazer um teste no Nacional, e eu tinha umas aulas chatas no dia e falei: 'Vou matar a aula e vou com você no treino'. Só que lá no profissional, eu tinha amigos mais velhos, vamos dizer que estava com 17 anos e tinha amigo de 20, 22... Então, chegamos lá e um deles entrou no vestiário e me trouxe um par de chuteiras e disse: 'Você também vai fazer o teste'. Começou 7 e pouco da manhã e foi até 11 e pouco, e eu pensei: 'Isso aqui não acaba mais', e aí eu passei. Eu fazia muitos gols, e o pessoal mesmo falava: 'Tu vai ser um grande jogador de futebol', e eu levava isso na brincadeira", recorda.

"Estava faltando um lateral direito, e o técnico [Eduardinho] disse 'vai lá você, garoto', e eu fui bem. Assinei um contrato meio maluco, fiquei mais no aspirante, entrei e comecei a ir bem, deixavam eu bater faltas e pênaltis, e eu ia fazendo uns golzinhos. E aí, o que aconteceu? O vice-presidente do clube era diretor de esportes do Palmeiras, e eu fui pra lá em 68, molecão ainda. Fiz um campeonato pelo Nacional e aí fui para o Palmeiras, iam muitos jogadores do Nacional para o Palmeiras e para a Portuguesa, e eu peguei o embalo", diz.

Filho de um 'palmeirense roxo', como ele mesmo diz, Jair Picerni classifica a passagem como jogador pelo Palmeiras como 'o maior presente do mundo' que deu ao pai.

"Quando eu era molequinho ainda, meu pai tinha uma gravata azul do Palmeiras, ele às vezes saía à noite com a minha mãe, iam no cinema ou alguma coisa assim, e eu falava: 'Pai, você fica fazendo graça com essa gravata aí, vai ter nego que vai dar uma porrada no senhor'. Eu tinha uns 12, 13 anos", recorda. "Meu pai era palmeirense roxo, então [jogar no Palmeiras], foi o maior presente do mundo que eu dei para o meu pai", acrescenta o ex-técnico.

O pai de Jair Picerni faleceu antes de o filho assumir o comando do Palmeiras, em 2003. Mas a ligação entre os dois e o amor alviverde continua: "É marcante, e muito [a passagem pelo Palmeiras]. O meu pai faleceu, e eu tenho minha prece à noite, e eu até agradeço ao meu pai".

Aposta nos meninos deu certo

Antes de assumir o Palmeiras, Jair Picerni já tinha passado por vários clubes na carreira. E além de formar times, outra paixão sua era dar oportunidades aos meninos das categorias de base. Havia sido assim, por exemplo, no Guarani e na Ponte Preta. E ele repetiu a dose no Palmeiras.

Rebaixado em 2002, com nomes de peso como Arce, Leonardo Moura e Dodô, o Palmeiras reformulou o time para o ano seguinte e apostou em alguns jovens que se destacaram na Copa São Paulo, como Vagner Love, além de reforços vindos, por exemplo, do São Caetano, como Adãozinho. A fórmula deu certo, e o time alviverde sobrou na competição nacional.

"Eu subi 11 garotos com o Mustafá [Contursi, ex-presidente do Palmeiras], mas já estava acostumado a trabalhar assim na Ponte Preta, era o meu trabalho durante a semana, colocava juniores contra o profissional. Isso era tradicional, a Ponte Preta e o Guarani faziam muito isso. Aí, eu subi Vagner Love, Alceu, Edmilson e outros. Fomos campeões com quatro rodadas de antecedência e metendo 4 a 1 no Botafogo [na última partida]", destaca Jair Picerni.

"Poderia disputar o Mundial contra o Real"

Antes do Palmeiras, Jair Picerni fez, talvez, o seu trabalho mais marcante como técnico. Até então pouco conhecido no cenário nacional, o São Caetano ganhou força e passou a incomodar até os grandes. Foi vice brasileiro em 2000 e 2001 e, em 2002, chegou perto, muito perto, do título da Libertadores. Mas, na decisão por pênaltis, acabou derrotado pelo Olímpia-PAR.

Caso tivesse levado a melhor nas penalidades, o time de Jair Picerni teria no final do ano um jogo contra os galácticos do Real Madrid, pelo Mundial de Clubes. Já imaginou? Picerni já. "As coisas foram muito legais pra mim, foi muito bom mesmo. Com o São Caetano eu poderia estar disputando o Mundial contra o Real Madrid no Japão".



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