23/11/2021 08:27

Entenda como Palmeiras x Flamengo virou clássico mais disputado do que regionais

Chama-se de "clássico" o jogo disputado entre rivais de uma mesma cidade, estado ou região. A denominação não tem a ver com o desempenho dos times na temporada ou o momento histórico de cada um.



História e geografia contam mais nesses casos.


Às vezes, jogos decisivos que se repetem alimentam rivalidades. E essas rivalidades podem transformar uma partida que, normalmente, você não chamaria de clássico justamente nisso.





Com Palmeiras e Flamengo, que decidem a Copa Libertadores de 2021 no próximo sábado, às 17h, em Montevidéu, essa transformação aconteceu. Após duelos decisivos travados desde 1929, nos últimos tempos o poderio financeiro dos dois clubes confirmou a evolução.


Nos últimos seis Brasileirões, o Palmeiras ganhou em 2016 e 2018, o Flamengo venceu em 2019 e 2020 e só o Corinthians, em 2017, e (provavelmente) o Atlético-MG em 2021 desafiaram esse domínio. Palmeirenses e flamenguistas, porém, quase sempre lutaram ponto a pelas primeiras posições nesse período.


Com torcidas que historicamente não se bicam, esse domínio dividido foi definido e impulsionado por provocações. Do "cheirinho" ao "sem mundial".


Nesta reportagem, você vai ver que, sim, Palmeiras x Flamengo é clássico.


A chegada do "cheirinho"



Em 2016, os dois times já ensaiavam a polarização atual do futebol brasileiro. Na disputa ponto a ponto pelo troféu do Brasileirão, o departamento de comunicação do Flamengo abraçou a expressão "cheirinho de título", para dizer que a conquista estava próxima —mesmo com o Palmeiras liderando o torneio.


A torcida curtiu, memes surgiram, peças produzidas por parceiros do clube começaram a rodar a internet e incomodar os palmeirenses.


Na arquibancada, isso virou violência. Em jogo disputado em Brasília, as duas torcidas protagonizaram uma pancadaria no Estádio Mané Garrincha. O mando era rubro-negro, mas muitos palmeirenses estiveram no estádio para ver a vitória por 2 a 1.


O incidente rendeu punição a ambos. Para o Flamengo, três partidas como mandante sem a presença das organizadas, e mais três jogos sem torcedores como visitante. O Rubro-Negro também pagou multa de R$ 30 mil.


O Alviverde levou gancho de cinco partidas sem a presença de torcidas organizadas e um setor do Allianz Parque foi interditado. Além disso, o clube não pôde ter torcida em outros cinco jogos como visitante.


No fim, com o Palmeiras cada vez mais perto do título que viria a conquistar, o "cheirinho" virou antimarketing. Palmeirenses e outros torcedores começaram a usar a expressão para sacanear os rubro-negros, que ficaram mesmo só no cheirinho.


Mas a história da rivalidade vem de antes.


Palmeiras de Telê atropela Fla de Zico



Na era moderna do futebol, o confronto de dezembro de 1979, já nas fases finais do Brasileiro daquele ano, é uma das vitórias mais lembradas pelos palmeirenses contra os rubro-negros: 4 a 1 em pleno Maracanã.


Num campeonato com 94 times, o Palmeiras ficou entre os 16 primeiros e classificou-se para um grupo eliminatório com Flamengo, São Bento-SP e Comercial-SP. A classificação para a semifinal era dada como certa pelos cariocas. Bastava vencer o Palmeiras no Maracanã.


Mais de 10 mil palmeirenses foram ao Rio para o jogo. Viram os gols de Jorge Mendonça, Carlos Alberto Seixas, Pedrinho e Zé Mário que classificaram o Alviverde para encarar o Internacional na semifinal. Os colorados terminariam campeões nacionais naquele ano, mas a vitória sobre o Fla não seria esquecida.


Euller classificou o Palmeiras em 1999



Em 1999, a torcida do Palmeiras cantava "é nóis (sic) na fita: Copa do Brasil, Libertadores e Paulista", em alusão aos três títulos que o time disputava com boas campanhas e chances reais de título. A Libertadores, o clube conquistou. No Paulista, com times mistos, perdeu o título para o Corinthians numa finalíssima que terminou com pancadaria generalizada no Morumbi. Na Copa do Brasil, o troféu também não veio. Mas um jogo daquela campanha entrou para a história do clube.


Pelas quartas de final, o Flamengo venceu o jogo de ida por 2 a 1, chegou ao Parque Antárctica e fez um gol antes do primeiro minuto daquele jogo de volta. Mas veio o segundo tempo e, aos 12min, Júnior cruzou para Oséas empatar. Bruno Mendes, que já tinha feito o primeiro, recolocou o Fla na frente aos 13min. Aos 15min, Júnior empatou de novo. Com a empolgação dos dois gols e 30 minutos para fazer mais dois, o estádio virou um caldeirão. E o Palmeiras cresceu com um pequeno jogador.


O terceiro gol veio aos 41min. Após rebote de cabeçada de Oséas, Euller, 1,71m de altura, fez de cabeça. E sairia também com a cabeça do Filho do Vento, aos 43min, o quarto e salvador gol da classificação alviverde.


A primeira final: Flamengo azarão e campeão



Até agora, você viu que a rivalidade não foi construída em finais. A primeira foi no mesmo ano de 1999: um time Rubro-negro sem muito brilho levou a melhor na extinta Copa Mercosul, equivalente à Sul-Americana de hoje. O Flamengo venceu por 4 a 3 no Maracanã e foi para São Paulo podendo empatar.


O herói daquela partida foi o atacante Lê, formado na Gávea. Com seu gol, o Fla arrancou um empate por 3 a 3 e saiu de São Paulo com a taça sul-americana. Na época, o Alviverde ainda era turbinado pelo dinheiro da Parmalat e sucumbiu ante um rival que fez da força de vontade o seu trunfo.


O caso Kléber Gladiador de 2011



No Palmeiras de Felipão em 2011, Kleber Gladiador era o melhor jogador da equipe. Assim, foi com perplexidade que a diretoria do Palmeiras soube pelo atleta que o Flamengo, da presidente Patrícia Amorim, lhe oferecia o triplo do salário.


O atacante, que ainda não havia feito sete jogos pelo Brasileiro, levou a situação ao presidente Arnaldo Tirone e ao vice Roberto Frizzo e pediu um aumento. Eram tempos de vacas magras no clube e Kléber foi informado que nada poderia ser feito naquele ano.


Com seis jogos completados, Kléber sofreu uma lesão muscular e acabou perdendo alguns jogos, seguindo assim apto a uma transferência ao Fla. A lesão gerou desconfiança na torcida e na diretoria. Mas Kleber seguiu no time.


O nome do Flamengo apareceria mais duas vezes nessa história. Foi contra o Rubro-Negro que Kleber voltou a jogar, no Pacaembu, e arrumou uma confusão ao não devolver uma bola num lance que os cariocas acusaram ser falta de fair play.


E foi às vésperas de uma viagem ao Rio, para enfrentar também o Fla, que Kleber se recusou a embarcar em protesto à agressão sofrida pelo volante João Vitor na frente da sede do clube, dias antes.


Ele nunca mais vestiu a camisa do Palmeiras. Mas também jamais vestiu a do Fla.


2018 e 2019: troco e tréplica



Após o episódio do "cheirinho", os rubro-negros engoliram em seco a provocação. Mas a hora da desforra chegaria. Não foi em 2017, com o Corinthians campeão e o Palmeiras vice. Não foi em 2018, com o Palmeiras novamente vencedor, com o Flamengo vice-campeão —após essa conquista, jogadores alviverdes se filmaram passando alegremente com uma caixa de som ligada em frente à loja oficial do Flamengo no aeroporto Santos Dumont.


Em 2019, o troco veio com estilo. No ano em que ganhou a Libertadores e o Brasileirão, o Fla causou a demissão de dois técnicos do Palmeiras. No primeiro turno, após 3 a 0 no Maracanã, Felipão recebeu o bilhete azul. E no segundo, com um 3 a 1 do já campeão brasileiro e sul-americano, foi a vez do recém-chegado Mano Menezes e do diretor Alexandre Mattos perderem seus empregos.


Na ocasião da segunda partida, o Ministério Publico de São Paulo vetou a entrada de torcedores rubro-negros e os ânimos se exaltaram ainda mais.


E o Palmeiras não foi esquecido quando os rubro-negros ganharam a Libertadores. Ainda em Lima (PER), uma grande festa tomou conta do hotel rubro-negro. De microfone em punho, Gabigol cantou: "O Palmeiras não tem Mundial/ O Palmeiras não tem Mundial/, Não tem Copinha e não tem Mundial/Não tem Copinha e não tem Mundial", em alusão ao interclubes da Fifa e à Copa São Paulo de Futebol Júnior.


O jogo da covid de 2020



Quando chegou 2020, a rivalidade estava em níveis altíssimos. Quando chegou o momento de jogarem pelo Brasileiro de 2020, porém, o Fla vivia um surto em massa de covid-19. Tentou adiar o jogo no Allianz Parque. O Palmeiras não topou, alegando ter ele mesmo encarado jogos com atletas infectados anteriormente.


O Alviverde queria que o protocolo da CBF, que mandava os times entrarem em campo se houvesse suficientes atletas inscritos em condições, fosse seguido, o que era visto como um acinte pelos rubro-negros.


O jogo foi confirmado e, por conta do imbróglio, a partida começou atrasada. O Fla, lotado de meninos da base que nunca haviam jogado no time de cima, arrancou um heroico empate por 1 a 1.


A segunda final: Taça em Brasília, em 2021



Cariocas e paulistas, respectivamente campeões brasileiros e da Copa do Brasil, voltaram a se encontrar em uma decisão pela Supercopa do Brasil de 2021, em abril de 2020. Em ótima partida, com dois gols de Raphael Veiga para o Palmeiras e de Gabigol e Arrascaeta para o Flamengo, os times empataram por 2 a 2 e foram para os pênaltis no Mané Garrincha.


Antes do término do jogo, membros das duas comissões técnicas partiram para a briga no túnel de acesso para os vestiários. Segundo relatos de seguranças do Palmeiras, até dirigentes rubro-negros, como Marcos Braz, participaram da confusão.


Em campo, o Alviverde chegou a ter a taça na mão. Bastava a Luan converter seu penal, depois de Weverton pegar duas cobranças. Mas ele errou, e Diego Alves entrou em cena. O goleiro agarrou três cobranças e viu Danilo bater o seu na trave.



Na segunda final entre os rivais, também dava Flamengo.



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Carlos Santos     

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