"Ele não é cria da base coisa alguma", Rony e empresário falam de início polêmico do atacante no Remo
15/12/2021 10:22
"Ele não é cria da base coisa alguma", Rony e empresário falam de início polêmico do atacante no Remo
De férias no Pará, atacante do Palmeiras relembra dificuldades no começo da carreira: "tinha largado tudo"; já Hércules fala de situações que levaram à saída do jogador do clube paraense
O atacante Rony surgiu para o futebol em 2014. Um menino franzino, cheio de sonhos, como muitos jovens que querem viver da bola. Contudo, o início de um dos principais jogadores do atual elenco do Palmeiras foi totalmente diferente do que ele vive hoje.
De férias em Belém, o jogador concedeu entrevista exclusiva ao ge Pará e falou pela primeira vez sobre a passagem que teve pelo Remo, cheia de polêmicas do começo ao fim.
"Já tinha largado tudo. No meu pensamento era: “estou dispensado, não estou nem treinando. Vim para cá fazer o que? Gastar dinheiro com passagem?", Rony, atacante do Palmeiras.
Tudo começou com Rony ainda na base. Era um jogador com potencial, mas sem a valorização por parte do clube, assim como vários outros garotos. Um problema que se arrasta por anos nos principais times de futebol do estado e que a cada temporada encontram mais dificuldades para revelar talentos em Belém.
Com Rony também não foi diferente. Ele ficou fora de competições de base, foi embora para sua cidade natal, município de Magalhães Barata, e teve que se virar fazendo trabalhos temporários, o famoso “bico”.
"Na época que teve a Copa Norte e a Copa do Brasil, não fui chamado para jogar. Contrataram meninos novos. Voltei para tentar oportunidade, porque joguei como titular a final do Sub-20 (Parazão). Como vi que tinha muita gente, nem treinava, não fui mais. Fui para casa e depois fui para o interior. Já tinha largado tudo. No meu pensamento era: “estou dispensado, não estou nem treinando. Vim para cá fazer o que? Gastar dinheiro com passagem?”. Não tinha dinheiro nem para comer, imagina para pagar passagem de ônibus. Então, para mim, tinha sido dispensado".
A volta do atacante para o Remo aconteceu meses depois, quando Rony recebeu uma ligação do antigo treinador, Walter Lima. A conversa foi breve, era um convite para retornar ao clube, que precisava montar às pressas um time para a disputa da Copa São Paulo.
"Estava em casa, deitado na rede e recebi uma ligação. Falei: “alô, tudo bem? Quem é?”. “Ah, sou eu, Walter. Lembra de mim? Estávamos procurando jogadores que estão inscritos na Copa São Paulo e seu nome está aqui. Como você está?”. Respondi: “Está tudo bem, na correria. Estou fazendo alguns bicos aqui, trabalhando de moto-taxi. Me viro aqui”. Ele perguntou se ainda estava jogando bola e falei que estava jogando pelada. Ele perguntou se eu queria voltar a jogar e pediu para eu me apresentar no final do ano, porque tinha um amistoso contra o profissional. Era longe. Arrumei dinheiro do ônibus e fui. Joguei o amistoso como titular, fui bem demais e depois fui para a Copinha, onde me destaquei, marcando, inclusive, gol contra o Corinthians".
Além do técnico Walter Lima, o antigo diretor da base do Remo, Paulinho Araújo, também está nas lembranças de Rony, devido a ajuda que dava aos garotos do sub-20.
"O Paulinho falou para o Walter (Lima) que eu iria treinar no profissional. O Walter me ajudou muito. Às vezes ele levava suplemento para a galera, me dava. A estrutura que o time tinha era bem sofrida. Íamos treinar lá no Tapanã. Por vezes não tinha água ou isotônico, quando tinha era uma alegria. O Walter e o Paulinho ajudavam a galera. Walter me dava dois suplementos para ver se eu engordava um pouquinho", conta em tom bem humorado.
"O Remo tinha um time cheio de jogadores conhecidos, como Eduardo Ramos, Leandrão, Athos. O treinador era o Charles Guerreiro e não tive oportunidades. Minha ida para o profissional se deu pelo apoio do Zeca Pirão e do Paulinho. Eles convenceram o Agnaldo, que tinha acabado de assumir, a me dar oportunidade".
Início no profissional
A estreia de Rony no profissional foi no dia 23 de março de 2014. Ele entrou no segundo tempo do jogo contra o São Francisco-PA, pela quarta rodada do Segundo Turno do Campeonato Paraense daquele ano, no lugar de Leandrão, um dos atletas mais caros do elenco. O time perdia por 1 a 0 e foi de Rony o gol de empate do Remo.
"Lembro que quando o Paulinho veio me pedir pra ir treinar com o profissional, como eu já tinha sido barrado uma vez, brinquei com ele e disse: “se eu for lá e não me derem material, vou te quebrar no soco” – brincou o jogador – No primeiro treino eu fui muito bem. O zagueiro titular era o Max e dei muito trabalho pra ele (risos). Fui no banco contra o São Francisco, o time tava perdendo, entrei no sufoco e fiz o gol. Fomos campeões paraense em 2014, goleamos o Paysandu por 4 a 1 na final, com um time cheio de garotos (eram seis). Foi incrível".
Rony então começou a ter destaque pelo time azulino e logo propostas foram surgindo. Um empresário procurou o atleta querendo o representar, mas foi com Hércules Júnior que a vida do jovem mudou.
"Tinha um cara querendo me empresariar. Ele disse que ia me ajudar e eu disse que precisava de um carro para me locomover. Falou que ia me dar, não deu. Aí eu conheci o Hércules na igreja e ele me disse: “carro não te dou. Não te dou o peixe, mas te ensino a pescar”. Aí eu fiquei com aquilo na cabeça. Aconteceram outras situações que me fizeram procurar ele para pedir ajuda. O outro cara já não me atendia mais. Ai falei para o Hércules que queriam (os diretores do Remo) me negociar para o Corinthians, Fluminense e etc. Foi quando começamos. Eu precisava confiar em alguém para defender meus interesses, pois eu não sabia de muita coisa. Ai decidi confiar nele. Graças a Deus deu certo e estamos juntos até hoje. Temos uma relação de pai e filho realmente".
Empresário revela polêmicas
Quando Hércules assumiu a carreira de Rony, logo foi procurar saber de tudo que envolvia o atleta, descobrindo, segundo ele, algumas irregularidades e falta de compromisso do clube, que o levaram a colocar o Remo na justiça.
"Falei para ele vir aqui (escritório), veio e eu expliquei que precisava ser empresário dele. Foi quando a gente formalizou e assumi. Então começou a guerra. O que o Remo fazia com ele estava errado, tinha salário e FGTS atrasados. Não permiti nenhuma negociação, porque descobri que ele tinha direito a um aumento salarial que nunca foi dado, estava atrasado. O salário foi recebido, mas o aumento não. Isso foi público, saiu na imprensa".
Hércules conta que o clube solicitou que o caso não fosse para justiça e então um acordo entre as partes foi feito.
"Entrei na justiça para ele poder receber. Os diretores do Remo me procuraram no dia da audiência, 4h30 da madrugada, pedindo para não ir para a audiência e ajudá-los. Disse que só tinha uma forma de não ir para a justiça. Eles deviam, se eu não me engano, R$ 40 mil. Falei que queria um carro para o Rony e que arrumassem um apartamento melhor para ele, para que pudesse ter condições de viver bem".
"Foi acertado isso, não suspendi a audiência, pedi para adiar, pois queria ver até onde o Remo iria cumprir as obrigações do trato", Hércules Júnior, empresário de Rony.
A paz parecia selada, mas tudo veio à tona após o Remo não pagar o carro prometido, gerando um constrangimento ao jogador.
"Tínhamos um contrato que o Rony teria direito a 40% e o Remo ficaria com 60% em uma negociação. Porém, dois meses depois, o Rony foi informado que o Remo não tinha pagado o carro e que ele teria que ser obrigado a devolver. A situação do apartamento também estava irregular. Resumindo, não cumpriram nada, aí o bicho pegou. Conversei com o Pedro Minowa (ex-presidente do Remo). O Rony iria sair de graça, mas ele me prometeu que se eu tirasse da justiça, no final do estadual, o Rony estaria liberado. Então fizemos um acordo de cavalheiros. O Minowa foi criticado, taxado de burro, mas apenas honrou a palavra. Foi o que aconteceu. Solicitei a liberação do Rony e o Pedro Minowa assinou. As pessoas dizem que o Remo vendeu para o Cruzeiro. Nunca foi vendido, o Rony não pertencia mais ao Remo".
Apesar disto, Rony não esqueceu dos companheiros. Hércules diz que o jogador fez questão de doar o valor que seria do Remo para pagar salários atrasados no clube.
"O dinheiro que veio, o Remo não tinha direito. O Rony me pediu que queria doar o valor que possivelmente seria do Remo, pois ele queria que pudessem pagar os salários dos amigos e dos funcionários, que estavam em atraso. O restante veio para ele e o complemento da dívida que eles tinham com o Dadá. Nós pedimos uma conta em que a justiça não bloquearia esse dinheiro, que era a do sócio torcedor. Não sei o que eles fizeram. Tem histórias aí que não me interessam".
Respeito pela instituição
Apesar dos problemas com a diretoria do Remo, Hércules Júnior faz questão de deixar claro que o respeito pela instituição sempre existiu por parte dele e de Rony.
"A entidade Clube do Remo é respeitada por todos nós, merece todo carinho e respeito. Dizem para o Rony encerrar a carreira lá, mas eu não acho bacana isso, como se o Remo fosse um lugar para se aposentar. É um clube que merece respeito. Porém, no período em que o Rony surgiu, a administração não foi muito feliz e gerou esse vexame todo para a vida dele".
Em tom forte, Hércules não aceita que Rony seja chamado de “cria do Remo”. Ele compara a situação do atacante com tantos outros atletas que passaram no sub-20 na mesma época.
"Hoje os caras falam que é cria do Remo. Ele não é cria da base coisa alguma, parem com isso. Rony surgiu no Remo, teve uma oportunidade e aproveitou. Ele não foi trabalhado pela base, assim como vários outros talentos do nosso futebol. Vai fazer uma matéria agora, com certeza tem vários atletas que passaram pelo que o Rony passou. O atleta de base do Pará precisa se superar para vencer na vida. É preciso ter respeito por esses garotos. Temos muita gente talentosa aqui, mas é preciso ter uma estrutura adequada para eles e respeito. A base sobrevive de algumas pessoas que amam o futebol e gostam de ajudar o próximo. Nossos clubes não são preparados para revelar e respeitar seu patrimônio (os atletas). Apesar do rebaixamento, vejo essa diretoria tentando fazer algo diferente. Existe uma boa intenção do Fábio Bentes, mas o caminho é longo".
"O Rony é fruto da superação e fé dele. Ele é resultado do que plantou no campo e vem plantando. Sobre ter oportunidades, a vitrine do Clube do Remo foi real, assim como ele também é grato a quem o deu essas chances. Rony nunca escondeu o carinho que tem pelo Remo e pela torcida. Ele até queria ir ver a final da Copa Verde, mas infelizmente não foi possível", Hércules Júnior, empresário de Rony.
"Há um respeito do Rony pelo clube, como tem da minha parte também. Isso nunca vai mudar. Na época, a administração que assumiu não foi feliz. Se tudo tivesse sido cumprido, não existiria brecha para ação judicial. A irresponsabilidade da diretoria com o clube fez com que o atleta fosse buscar seus direitos".
No final da entrevista, Hércules ainda relembrou da fala de um ex-diretor remista - sem citar o nome -, que criticou a parceria do empresário com Rony, que estava iniciando a carreira.
"Recebi recentemente uma entrevista da época falando sobre a saída do Rony. Um diretor falou assim: “olha o nível em que ele está sendo administrado”. Hoje, graças a Deus, Rony é um dos grandes atletas do futebol brasileiro. Agora vai atrás desse diretor que falou essas coisas e vê aonde ele está agora. Se pelo menos ele saiu da Série C ou se cresceu na vida como executivo de futebol. Espero que nosso futebol consiga se organizar e aproveitar melhor esses talentos que temos".
Por isso o admiro,se fosse um cara sem pretensões, não estaria ao de está hj e com muita moral! Continue assim: Humilde e lutador, que novas conquistas virão!!!
Por isso o admiro,se fosse um cara sem pretensões, não estaria ao de está hj e com muita moral! Continue assim: Humilde e lutador, que novas conquistas virão!!!
Mais uma, de tantas histórias de sorte e superação no futebol. Uma coisa é certa, está muito longe de ser um bom jogador de futebol...