O São Paulo só não ocupa mais páginas que o Palmeiras entre os clubes citados em "Cabeça fria, coração quente", livro de Abel Ferreira que chega às livrarias e aos compradores online nesta semana. Nem mesmo o Flamengo e o Santos, adversários nas finais das duas Libertadores conquistadas por ele, ocupam tanto espaço na obra.
A questão é aritmética, por um lado. Afinal, o Palmeiras fez duas decisões em dois jogos com o Tricolor: a final do Paulista de 2021 e as quartas da Libertadores do mesmo ano, além dos dois jogos do Brasileiro e da partida da primeira fase do Estadual. A obra dedica capítulos inteiros a cada perna dos jogos decisivos. Mas não é apenas por isso que o clube tricolor tem destaque no livro.
Abel fez duelos táticos muito pegados com o time de Hernán Crespo e tomou decisão polêmica quanto à escalação, no Brasileiro, quando o técnico adversário já era Rogério Ceni.
Além disso, o São Paulo é o calcanhar de Aquiles de Abel. Foram três empates, três derrotas e apenas uma vitória, com 28,5% de aproveitamento. Mas não foi qualquer vitória. Os 3 a 0 no Allianz Parque, em agosto de 2021, classificaram o time para a semifinal da Libertadores.
Dificuldade com a marcação alta e individual
Como já mencionara em entrevistas coletivas, Abel volta a falar no livro sobre a dificuldade de enfrentar a marcação alta e individual no campo todo idealizada por Crespo, ao dissecar a estratégia para o primeiro jogo da final do Paulista do ano passado.
Para suplantar o problema, Abel explica que decidiu usar Weverton na saída de jogo em três jogadores, como forma de gerar superioridade numérica, posicionando um zagueiro nas costas do centroavante adversário —no caso Pablo.
Já para tentar minimizar o problema com a individualização, o direcionamento era para os jogadores fazerem movimentações fora do convencional para dar amplitude ao jogo, alargando e alongando campo.
Para a segunda final, Abel repete a experiência do primeiro jogo e vê um jogo muito parecido, decidido por uma infelicidade: o chute do volante Luan que desvia em Felipe Melo e engana Weverton.
Por fim, ressalta que sacar Luan e colocar Gabriel Menino no lugar terminou de complicar as coisas para o Palmeiras, derrotado por 2 a 0.
Aspecto psicológico e mudança de estratégia de ataque
Nas quartas da Libertadores, Abel e comissão contam no livro que o aspecto histórico foi muito abordado na preparação psicológica do time. A então freguesia alviverde para o Tricolor na Libertadores foi usada como combustível.
No campo, Abel mudou a estratégia ofensiva. Os jogadores seguiriam fazendo movimentos fora do convencional, mas com o objetivo de aumentar o número de jogadores nos setores quando estava com a bola, em vez de dar amplitude ao jogo. A ideia era apostar em tabelas curtas em progressão para bagunçar o setor defensivo rival.
O livro relata que Abel fica satisfeito com o empate em 1 a 1 no Morumbi, que leva a decisão aberta para o Allianz Parque.
De modo que Abel repetiu a estratégia para o jogo 2, inclusive no que diz respeito a dar liberdade para os zagueiros rivais saírem com a bola, ora Arboleda ora Miranda, para tentar roubá-la e atacar justamente pelo lado desguarnecido com o avanço do zagueiro.
Assim sai o primeiro gol, com Zé Rafael avançando pela esquerda do ataque, onde Arboleda deveria estar, rolando para Raphael Veiga abrir o placar.
A obra depois relata como o lance do segundo gol, com Dudu, que era o homem mais livre do ataque, decidiu a vaga animicamente. E explica que a roubada de bola de Patrick de Paula, no terceiro, é fruto de um trabalho de pressão pós-perda.
O time tem cinco segundos para morder a defesa adversária antes de voltar para seu posicionamento após ser desarmado no campo de ataque. E Patrick conseguiu o roubo dentro desta janela, antes de bater a gol.
Decisão de poupar antes da final da Libertadores já estava tomada
Na reta final de preparação para a decisão da Libertadores de 2021, o São Paulo voltou a cruzar o caminho do Palmeiras. Em 17 de novembro, portanto a dez dias da final em Montevidéu, o Palmeiras encarou o São Paulo em casa com um time reserva.
No livro, Abel fala que a comissão sabia que o clássico era muito importante para a torcida, mas reafirma que o planejamento para vencer a Libertadores era ainda mais. E, por isso, diz ter escalado sem qualquer dúvida, um time que preservasse suas principais peças.
Segundo a obra, a derrota por 2 a 0 diante de um estádio lotado (35.070 torcedores), por mais que tenha enfurecido a torcida, foi encarado com tranquilidade no clube.
Os dois clubes voltam a se enfrentar hoje (10), em jogo atrasado pela quarta rodada do Paulistão 2022. O duelo ocorre no estádio do Morumbi, às 20h30 (de Brasília).